Friday, October 29, 2010

Drop shot


Sempre enxerguei o tênis como metáfora da vida, e talvez venha daí minha fascinação pelo esporte. As nuances técnicas e táticas do jogo, imperceptíveis ao leigo, só se comparam ao opressivo desafio psicológico que é um torneio de tênis. Um contra um, você e o adversário. Ninguém para culpar pelo fracasso; ninguém para dividir a glória. O esporte é o elogio do mérito levado ao extremo, e as modalidades individuais sua expressão máxima.
Mas, enfim, não quero me deter demasiado na descrição do tênis. Esta semana acompanhei dois dias de jogos da Copa Petrobras, no clube Harmonia, em São Paulo. Durante as disputas, e em meio à torcida na arquibancada, um golpe do jogo me chamou a atenção de um modo inusitado, que suscita paralelos com inúmeras situações da vida. O golpe é a deixadinha, ou drop shot. Um movimento ousado em que o tenista, ao invés de aplicar sua força máxima no golpe, apenas bloqueia a bola com a raquete e a faz cair mansa do lado da quadra do adversário. Pertinho da rede. Bem lenta. Hu-mi-lhan-te-men-te lenta. O golpe parece difcíl e arriscado – e é, na maior parte das vezes. O que chama atenção numa jogada dessas é a reação da plateia. A deixadinha, quando bem executada, surpreende. Admira. Vai-se ao delírio, exaltando o talento e a audácia do jogador. O erro, porém, invariavelmente é percebido na medida oposta. “Não era a hora!”. “Que burrice, era só empurrar na paralela”. “Pra que inventar? Quer fazer o que não sabe”. Fugir ao senso comum é arriscar-se em dobro, porque não há condescendência com quem escolhe ousar. Procurar destacar-se é estar pronto a pagar o preço pelo eventual fracasso. A mediocridade nutre uma estranha predileção por ser sociável. A genialidade, um providencial descrédito pela opinião alheia.

PS: para quem se interessar pelo assunto, recomendo o Blog do Paulo Cleto. Em especial este texto, da final do Aberto da Austrália 2009, que é primoroso.

http://colunistas.ig.com.br/paulocleto/2009/02/01/hoje-e-amanha/

Monday, October 25, 2010

Thursday, October 07, 2010

O Dilema da Portaria


Passar por uma portaria produz um dilema social/moral/filosófico de suma importância: cumprimentar ou não o porteiro?
A educação pede (alguns dirão, exige) um "bom dia", um "boa tarde". Mas e se fosse você o porteiro? Gostaria de cumprimentar toda e qualquer pessoa que passasse à sua frente? Porque são muitas ao longo do dia. Sempre ocupadas. Sempre indo a algum lugar. E o porteiro lá, parado. Cumprimentando e observando. É como se apenas a ele não fosse permitido ir além daquele ponto. Ninguém o convida. Ele é só isso: um ponto de passagem - e é esse o recado implícito em cada saudação apressada.

PS: Sou só eu ou toda portaria tem um quê de Caverna de Platão?

Sunday, October 03, 2010

Voto Consciente



Da empregada aqui de casa. Espero que ela não acesse o blog...

- Beltrana, pra quem você vai votar pra deputado?
- Ah, não sei ainda. Na hora eu vou pegar do chão.

Thursday, September 23, 2010

Guia de Cafés



Depois do sucesso do "Guia de Restaurantes", e a despeito dos pedidos em contrário, é hora de avaliar parte da rede de cafeterias que serve a região da Paulista.



GIRA MUNDO- Expresso de mais alto padrão na região. O grão é de qualidade, e a moagem aproveita-o em sua plenitude. A espuma em tom avelã denota a excelência internacional do café do Gira Mundo. O atendimento é rápido e as funcionárias se amontoam no balcão. Impossível precisar quantas pessoas trabalham lá dentro. A água com gás é cortesia, e o dono não miguela: tome antes, para melhor apreciar o café, e depois, para se livrar do sabor. O que é bom deve durar pouco.

STARBUCKS- Gigante do ramo, o Starbucks tem presença internacional somente comparável à do Gira Mundo. O expresso, em si, decepciona. Amargo, passa a impressão de que está contaminado com naftalina. A semelhança de sabor com a máquina da SEP desperta suspeitas a serem melhor investigadas. Testemunhas juram ter visto dezenas de máquinas iguais às da secretaria enfileiradas nos fundos da loja. O ponto alto da casa é o ambiente: as confortáveis poltronas e a iluminação em tom pastel convidam ao relaxamento.

MÁQUINA DA SEP- Maravilha moderna, o robô barista do Planejamento sempre provoca admiração nas visitas. Café igual para todos, sem distinção de cargo, salário ou vínculo empregatício. O menu de opções é vasto, e a máquina se dá ao luxo de esbanjar, disponibilizando um perigoso chá de limão (mortal para diabéticos). Segundo o fabricante, o assustador nível de ruídos impediu a popularização da máquina, restringindo a distribuição do modelo a aeroportos, casas noturnas e Secretarias de Estado.

EMPADAS DA VOVÓ- O forte da casa são as empadas, mas o café é de boa qualidade e o preço é honesto. Em entrevista ao blog, a Vovó garantiu que dará mais atenção aos apreciadores de um bom expresso, e não será surpresa se a Casa passar a adotar o nome “Empadas e Expresso da Vovó” ou, ainda, “Empadas Expressas da Vovó” (que sempre ri do trocadilho).

KILOUCURA CAFÉ&LOUNGE- Lounge temático do aclamado restaurante Kiloucura, a decoração é inspirada no primeiro Starbucks Saigon, aberto durante a Guerra do Vietnã. Mesas e cadeiras de plástico duro, em sintonia com a fachada em amarelo e vermelho, transportam o cliente para o clima de guerra em território asiático. Os grãos torrados com alto índice de impurezas resultam em uma exótica mistura que remete ao café. Ecologicamente correto, nada é desperdiçado: sobras do restaurante são incorporadas no processo de moagem.

Tuesday, September 21, 2010

In the book - III




Mais um trecho publicado aqui. O último... E o meu predileto, aliás. Trata-se da carta que um dos personagens envia à mãe, depois de 20 anos de ausência - e que finaliza o capítulo 2.



"Cara mãe,

Desculpe-nos, a mim e a Antonieta, do longo tempo que estivemos sem lhe dar notícias. A senhora, porém, haverá de entender que o estilo de vida o qual forçosamente abraçamos nos impede que a visitemos, bem como nos constrange de manter contato freqüente enquanto não pudermos dar termo resolutivo ao mal que nos aflige.
Desde já, peço-lhe que não se assuste com o recebimento desta carta. Esteja certa de que se a contatamos depois de prolongado recesso, não o faríamos senão para comunicar-lhe boas novas – e pedir que nos auxilie a dar cabo nesta maldição a qual com freqüência nos referimos.
Estivemos, como bem sabe, a peregrinar por todo canto do mundo em busca de nosso propósito. Inicialmente era a cura que procurávamos, mas devo confessar que a escassez de informações (e o teor negativo do pouco que nos chegou) fez com que desviássemos lentamente o foco de nossas andanças. A vida em trânsito passou a acobertar os crimes hediondos que a sanha por sangue nos impôs. O rastro tenebroso de nossa passagem encheu de pânico as comunidades das quais no servimos, embora pareça claro que de modo algum tenham atinado para a verdadeira natureza de nossa condição.
A sucessão de noites em claro e dias em trevas (não faço gosto em alongar-me na descrição do que se supõe perpétuo) solidificaram em nós uma firme predisposição para a conduta vil, egoísta e inconseqüente, de modo que já nos conformávamos da nossa sorte quando casualmente encontramos nosso malfeitor.
O vampiro não nos reconheceu de imediato, apenas sabia que estava entre iguais. Foi preciso que nos apresentássemos para que enxergasse em nós o produto de uma noite fatídica em que se aproveitara da embriaguez alheia para discorrer acerca das maravilhas da eternidade. Não houve - respondo por mim, mas creio que Antonieta compartilhe do mesmo sentimento – desejo de vingança ou acerto de contas. Queríamos respostas, e não poderia haver sujeito mais capaz de fornecê-las que o nosso criador.
Entre um e outro gole do néctar que alimenta o sobre-humano vigor vampiresco, cortesia de nosso cúmplice (a vergonha faz com que prefira poupá-la das circunstâncias desta pequena reunião), surpreendeu-nos duas vezes. Primeiro dizendo haver fundamento em nossa vontade, pormenorizando o método segundo o qual deveríamos proceder. E por último, talvez resida aqui o espantamento maior uma vez que a conduta anterior é relativamente simples, revelou a mim e à minha esposa o local onde poderíamos confrontar a origem de nossa condenação.
Espero, minha mãe, poder contar com o seu auxílio. Voltaremos a Serrópolis tão logo possível. Antecipo que não retornaremos sozinhos. A tarefa que nos foi imposta carece do auxílio de nosso instrutor. Naturalmente não pretende ajudar gratuitamente, e neste ponto se faz necessária a colaboração da senhora. É provável que ainda agora esteja a caminho, como nosso enviado, preparando a nossa chegada. Procurará pela senhora, com a intenção de adquirir a residência da família. Peço-lhe que ceda, a despeito do inconveniente da mudança.Explicarei devidamente os motivos na ocasião adequada.
A propósito, nosso criador, o vampiro que irá procurá-la, atende pelo nome de Ludovico.


Ávido pela mortalidade,
Eliseo Pereira Inácio"

Thursday, September 16, 2010

Cadê o shoyu?


Hoje, no restaurante Kiloucura:

- Vocês tem shoyu?
- Oi? - funcionário novo, surpreendido pela pergunta.
- Shoyu. Costuma ficar ali em cima - aponta para o balcão.
- Não vi ele hoje, não.
- Será que ele não está nos fundos?
- Vou ver.

Voltou logo depois. Imagino a conversa na cozinha.

- O Shoyu veio hoje? Estão perguntando por ele no salão.
- Hoje não. Mas leva esse vidrinho lá pro freguês que ele vai ficar satisfeito.

Wednesday, September 15, 2010

A onda espírita e o sexto sentido



 O Espiritismo parece estar na moda, pelo menos nas telonas nacionais. Depois do sucesso de “Chico Xavier”, é a vez de “Nosso Lar”, baseado no livro homônimo atribuído ao espírito André Luiz. Não assisti “Nosso Lar”, mas posso avaliar “Chico Xavier”: o filme é médium. O cinema americano vira e mexe explora a mesma temática, embora não me lembre de que tenham recorrido à doutrina kardecista. Preferem abordá-la em filmes de terror, ou na roupagem blockbuster.
Por coincidência, este final de semana assisti “O Sexto Sentido” na TV. Não sou exatamente um estudioso do Espiritismo, longe disso - embora tenha tido, eu próprio, uma experiência possivelmente atribuível ao sobrenatural extra-corpóreo (recorde de comentários no blog: Encontro em Família). Existe, porém, um ponto que me intriga pela inverossimilhança, justamente o tema central do filme gringo: trata-se do espírito que morreu, mas não sabe que está morto.
Ora, que tipo de espírito pode ser estúpido a ponto de não perceber que desencarnou? E quanto tempo pode durar uma confusão dessa natureza? Porque no filme o personagem do Bruce Willys passa toda a trama vagando em ignorância. Posso conceber que, logo em seguida à desencarnação, possa haver uma confusão inicial: “Morri? Vou perguntar na rua. Estão me ignorando, droga. Vou pegar o carro e perguntar em casa, lá não vão mentir pra mim. Droga, minha mão não consegue segurar a maçaneta. Puxa, entrei no carro mesmo assim. Tem algo de muito suspeito acontecendo ao meu redor. E agora? Como vou descobrir se estou morto?”. Não cola. Persistir nesse tipo de dúvida por mais de 5 minutos parece caso de alma sem salvação.

Friday, September 03, 2010

in the book - II



(Trecho do livro em produção)

Preocupada como estava, demorou para que enfim dormisse. A má sorte daquele dia fez com que o sono tão custoso fosse interrompido no meio da noite, quando as velas no altar da sala já há muito haviam sido consumidas. A octogenária era dona de um sono bastante leve, e o ruído seco do que julgou serem batidas na porta da frente do sobrado foram suficientes para despertá-la. Logo constatou que a energia não tinha retornado, o que fez com que se sentasse ao lado do criado-mudo em busca do pires e das velas que ali guardava por precaução. Vestiu-se rápido, apenas o robe branco por cima da camisola de seda, e desceu as escadas com cuidado, degrau por degrau. Uma mão à frente, segurando o pires com a vela em cima, a outra se escorando no corrimão. O final da escadaria dava direto na porta da frente, que abriu sem medo nem cerimônia. Esticou o pescoço para fora. Tinha esfriado, apertou o robe contra o corpo. Olhou para os dois lados mas nem sinal de quem batera. Retomou o rumo do quarto, desconfiando dos sentidos que, a exemplo da memória, vira e mexe lhe pregavam peças. O esforço fez com que chegasse ofegante, mas a falta de ar foi saciada pela lufada de vento que soprou da janela escancarada. Inezita não se recordava de tê-la deixado aberta, e nesse ponto não temia que fosse traída pela memória, posto que não havia chances de que tivesse conseguido dormir com aquele vento cortante a perturbá-la. Enquanto se dirigia à janela, um pressentimento ruim a tomou por inteiro, de tal modo que de imediato manifestava-se fisicamente. O coração batia acelerado, a respiração se fazia pesada. Uma vertigem súbita fez com que se detivesse por um instante. Escutou as batidas de novo, iguais as que a tinham despertado, agora na porta do seu aposento. A chama da vela não podia alcançar aquele espectro indistinto do qual só se podiam distinguir os contornos, entretanto não poderia alegar que não fizesse idéia de quem era. Pôde ver quando estendeu a mão em sua direção. O tiro, certeiro, no coração, não viu.

Thursday, September 02, 2010

Mesa Redonda


Moderador: Eles são candidatos a Deputado Federal e a Presidente por partidos diferentes. Tem trajetórias distintas, e idéias idem. Conhecidos há muitos anos pela população, os dois sequer concorrem ao mesmo cargo. Por isso mesmo, com o objetivo de enriquecer o debate político sem acirrar disputas pessoais, a Produção do Blog promove a Mesa Redonda de hoje com os candidatos José Serra e Tiririca!

Platéia: (aplausos)

M: Obrigado aos dois pela presença.

José Serra: É uma honra.

Tiririca: É nóis.

M: Para começar, vamos sortear o assunto aqui na urna. Nossa secretária, a Mulher-Pêra, está sorteando. Já sorteou! (aplausos). Vem pra cá, Mulher-Pêra, me entrega esse papel. Isso, volta pra lá agora, bem devagar. Vamos seguir, então. O assunto é... (voz tenebrosa) Planejamento.

Platéia: Uuuuuuuuuuhhh

M: Candidato Tiririca, qual a sua proposta para o Planejamento? Sob o prisma de um candidato à Câmara, devo lembrá-lo.

T: Planejamento pra mim é saber montar um programa...

JS: (baixo, para a sua equipe) Ele vai falar sobre programa de TV, quer ver?

M: Programa, Tiririca?

T: É isso mesmo (ajeita o chapéu e prossegue, falando engraçado). O PPA, instrumento constitucional do Planejamento, é estruturado em programas, vocês sabem. O problema é que a ingerência política impede que as Secretarias organizem seus programas, e suas respectivas ações, de um modo eficiente e racional. É impossível implantar a gestão por resultados do modo como é feito hoje pelos Estados, sem um instrumento estratégico dotado de indicadores de desempenho e de efetividade bem definidos. Como deputado, farei um PLC que estabeleça regras claras para o PPA, e acabe com essa distorção. Atualmente é muito difícil definir se o PPA é uma peça de gestão estratégica ou uma mera lei orçamentária.

M: É...bom... Por essa eu não esperava. Candidato Serra, o senhor, como ex-governador, o que pensa dessas críticas?

JS: O PPA, Programa Plurianual.

T: Sim.

M: À vontade, candidato.

JS: Elaborado de 4 em 4 anos.

M: O senhor tem 3 minutos.

JS: Já terminei.

M: É, bom... Acho melhor mudarmos de assunto. A Mulher-Pêra tá vindo com o papelzinho aqui.

Mulher-Pêra: Esse assunto afeta muitas pessoas, como eu e você espectador.

JS: Como a Mulher-Pêra.

M: O tema é... Gestão Pública!

T: Essa eu domino.

M: Então vai você, Tiririca. Como melhorar a gestão no setor público?

T: Essa é fácil. (Começa a balançar os braços enquanto prossegue, como se estivesse dançando). Funcionários de carreira, motivados e bem remunerados. Reduzir os comissionados e desaparelhar o Estado.

M: Olha, Tiririca, até que faz sentido o que você falou.

T: Eu sou palhaço mas não sou tonto.

M: Vou aproveitar o gancho. Candidato Serra, o que o senhor fez e pode fazer para avançar nesse caminho apontado pelo Candidato Tiririca?

JS: Florentina, Florentina...

M: Candidato Serra?

JS: (Cantarolando) 45,45...

Produção: Corta! Corta!

M: É.... Vamos ficando por aqui... alguma última palavra?

JS: Vota em mim, abestado! Senão eu vou morreeeeeeeer politicamente.

(Nota do Autor: Obviamente, o encontro é fictício e tal mesa redonda nunca aconteceu. O conteúdo da conversa é ficcional e tem fim apenas humorístico)

Monday, August 30, 2010

Guia de Restaurantes - Volume I




Neste primeiro volume do Guia de Restaurantes 2010 cobriremos os estabelecimentos conveniados à “Rede de Serviços da Secretaria para Alimentação” (RSS Feed). As casas visitadas pela Equipe do Blog são as que aceitam o ticket holográfico impresso com o Brasão do Estado em três dimensões. Nunca enxergou? Desfoque a visão e vá recuperando o foco aos poucos. Nada ainda? Que pena.


Jardim Paulista – Grande hit da Secretaria no começo do ano, ainda conserva uma clientela fiel. O ambiente é agradável e as atendentes simpáticas. Recentemente adquiriu uma máquina de café. Peça pela ficha no caixa, é de graça. Não se esqueça de colocar o copo embaixo antes de apertar o botão.

Elite Mineira –  O nome é pretensioso, e o restaurante faz jus a ele. O Elite Mineira é pequeno e, como não poderia deixar de ser, elitizado. Seus clientes ficam restritos ao bem decorado segundo andar. Ou seja: é para poucos. Mesas temáticas fazem o charme da locação. Sinta-se na fazenda almoçando em grupo na mesa de madeira rústica - ou para, um clima mais intimista, recorra à mesa externa, onde o piso de grama artificial proporciona uma impensável paisagem bucólica em plena região da Paulista. Evite o horário das 11:30 – cardápio completo só a partir do meio dia.

Restaurante do Flat – Boa comida, preço honesto, ambiente amplo e limpo. Lacrado há poucos meses pela vigilância sanitária. O Buffet era bem variado, e o preço único permitia que se comesse à vontade (por sua conta e risco, como viemos a saber). Que tenha sido interditado antes do Kiloucura foi a maior injustiça desde a Copa de 50.

Aquarela – Pior custo-benefício dentre os restaurantes pesquisados. Seu ponto alto é o preço elevado. De todo modo, salva-se o churrasco. Intriga o fato do buffet do segundo andar ser igual ao do primeiro. Ao pagar, peça pela ficha do café. É cortesia, mas as moças do caixa são mal educadas.

PF da Pamplona –  Esse é roots. Padoca com restaurante nos fundos, no melhor estilo Almoce-se-puder. Pratos fartos e comida saborosa, a preços competitivos, são o diferencial do lugar. Fica a ressalva das instalações: o PF da Pamplona passa a impressão de ser insuportavelmente quente no verão. Potentes ventiladores de parede colados um no outro estão a postos à espera das altas temperaturas. Cuidado: ligar todos na potência máxima pode fazer com que o restaurante inteiro levante vôo.

Kiloucura – Esta pérola da culinária sino-brasileira atende bem lá pra baixo da Rua Pamplona. O nome insólito e original remete erroneamente às Casas da Rua Augusta, mas não se engane: trata-se do bom e velho porquilo. Incrustado no subterrâneo de onde deveria haver dezenas de lojas de eletrônicos, o Kiloucura divide opiniões. Uns não gostam. Outros não gostam e acham sujo. Curioso porque nunca houve prova documental que sustente as queixas (vermes no alface, baratas na sobremesa ou ratos correndo pela cozinha). Ainda assim, fica a fama. O copo com gelatina é cortesia, mas seu consumo, embora opcional, é expressamente recomendável. Contém vermífugo.

(Não perca as próximas publicações: "Guia de Cafés" e "Guia de Restaurantes - Volume II)

Friday, August 27, 2010

SP Underground II


Andar de metrô causa perda momentânea da personalidade. Deveria haver um aviso na entrada prevenindo os passageiros deste mal súbito. Hoje, por exemplo, um vagão passou batido pela plataforma e parou logo na saída do túnel. Andou mais um pouco pra frente e, logo em seguida, retornou de marcha-ré.
O curioso disso tudo não é exatamente o movimento do trem, mas a reação das pessoas - antes, ainda, a falta dela. Ninguém comenta que o trem errou, ninguém lamenta, ninguém se surpreende.
Outro dia o trem ficou parado por 10 minutos na estação, cheirando queimado, as portas abertas. Os funcionários andavam pra lá e pra cá, tentando descobrir a falha. Quase ninguém deixou o vagão, fizeram cara de paisagem. Quando o trem fica parado no meio do túnel, idem: indiferença total. Nem a falta de oxigênio em um ambiente claustrofóbico é suficiente para que se fale alguma coisa. Fico imaginando qual o nível de tolerância dessas pessoas. Será que depois de uma hora parados comentariam entre si que o trem parou? Nessas ocasiões, sinto-me no filme Resident Evil. Os zumbis do cinema são agressivos apenas contra os seres humanos. Quando entre eles comportam-se mais ou menos como num desembarque na estação da Sé: autômatos, olhar perdido, vagando em manada.
Parece que nada é realmente capaz de perturbar um usuário do metrô. Dizem que certa vez, na década de 80, um Alien cruzou velozmente toda a extensão do túnel, perseguido por um Predador. Ninguém se incomodou nas plataformas.

Tuesday, July 20, 2010

in the book



Trecho do livro em produção. Nesta passagem, um dos protagonistas está preso acusado do assassinato da avó.

O choro de um homem feito é, quase sempre, tão ou mais deprimente para quem o presencia quanto para aquele que verte as lágrimas. Caio Túlio, num último esforço de dignidade, ao menos não soluçava, nem assoava o nariz com estardalhaço – o que seria compreensível, embora depusesse contra sua força de caráter. Chorava escondido sentado no chão, com as costas apoiadas contra a parede rebocada da cela que tinha o privilégio de ocupar sozinho - denunciado apenas por um e outro soluço ou fungada mais fortes os quais fracassasse em disfarçar. No xadrez ao lado, dois ladrões de galinha, pés-de-chinelo, roncavam pesado. Compunha com eles a totalidade da população carcerária de Serrópolis.
Quer chorar, chora na cama, que é lugar quente, provocou o carcereiro apontando para o leito de concreto sem colchão, tão frio quanto o piso da cela. Não debochava com a intenção de humilhar o detento, como pareceria a qualquer espectador mais sensível. Queria puxar papo, iniciar uma conversa amistosa. A brincadeira servia para deixar claro que não se abatia com o choro de Caio Túlio a ponto de calar-se em respeito.
Não foi você, não é? Como disse? – enxugou as lágrimas na camisa encardida, surpreso porque o carcereiro nunca tivesse lhe dirigido a palavra. A sua avó, não foi você quem matou. Por que diz isso? Conheço o tipo, o dos matadores, respondeu enquanto acendia um cigarro e o trazia à boca. A fumaça espessa das baforadas desenhava figuras no ar sob o brilho da lua cheia, que invadia quadrada a escuridão do cárcere. Fui um deles, confessou, arrastando para próximo das grades o banquinho de madeira de onde vigiava os presos. Matou um homem, então? – quis saber Caio Túlio, reconfortado sem saber por quê pelo passado criminoso do sujeito com quem conversava. Homem? Quem falou em homem? Tragou forte e pôs o cigarro de lado, enjoado. Passarinho. Sabiá, pica-pau, joão-de-barro... Me deu um problema com a Justiça que nem queira saber. Posso imaginar, rebateu o empresário, enterrando a cabeça sob os braços dobrados na altura do joelho.
Bom, mas eu dizia que não foi você, retomou o assassino ecológico. O problema, seu problema, é que convencer a mim não serve de nada. Cá entre nós, até o delegado, reservado que só ele, disse ter certeza de que foi você. Não sabe como me anima, balbuciou em resposta. A maneira como te encontraram, sabe, foi muito próxima do flagrante. Além do que não existe outro suspeito. Olha, te digo como amigo, para o sistema aqui, olhou em volta como se contemplasse com o gesto a Polícia e o Judiciário por inteiro, você já foi condenado.
As lágrimas escorreram novamente pelo rosto de Caio Túlio. A conversa com o prolixo doutor Penteado não tinha sido promissora, e agora o carcereiro, em sua simplicidade, escancarava sua real situação sem rodeios ou eufemismos. Engole o choro, não estou aqui pra te animar. Aproximou um pouco mais o banquinho da cela e segredou, maroto: Vim pra te ajudar. Que bela ajuda você pode me dar. Não desdenha, homem, parece que não tem noção da enrascada em que se meteu. Noção tenho, plena, mas não me leve a mal, vai me ajudar enquanto carcereiro ou matador de passarinho? Olha, não me subestima rapaz, eu nem devia te ajudar, só o faço por justiça. E dívida. Primeiro porque estou convencido da sua inocência, e depois porque devia a seu pai, Seu Eliseo, e nunca pude compensá-lo em vida. Ajudar o filho deve servir.
(...)

Tuesday, July 13, 2010

Aeromodelo



Este é o Taranis, aeronave de combate não-tripulada e remotamente controlada, apresentada ontem pelo Reino Unido. O design e o conceito são revolucionários, o que fez com que a notícia repercutisse no mundo todo. Representantes de exércitos ao redor do globo foram surpreendidos pelo invento inglês. Correspondentes internacionais colheram declarações em off de alguns generais de alta patente:

Portugal: “Já estamos desenvolvendo o nosso modelo de longo alcance, ora pois. Só falta aumentar o tamanho do fio.”
China: “Acho que dá pra fazer em plástico."
Paraguai: “Estamos aguardando a versão chinesa”.
Brasil: “Bonito, heim... Dá pra licitar?”.
Irã: “Já estamos desenvolvendo o nosso, mas não vamos mostrar pra ninguém.”

A notícia repercutiu também entre a ameaçada classe dos pilotos de caça. O presidente da Central Única dos Pilotos Unidos (CUPILUDO), Ronald Mcdonald Douglas, classificou como um “absurdo” não se reservar espaço no avião para um cockpit com piloto, mesmo que este não dirija a aeronave. “Os pilotos precisam do emprego. Se forem demitidos vão trabalhar onde? No Esquadrão Classe A?”. McDonald foi além. Segundo ele, é preciso garantir a segurança dos acompanhantes desses aviões controlados à distância, com assentos ejetáveis e estrutura reforçada. “Todas as medidas de segurança precisam ser observadas, do contrário seria uma loucura. Também lutaremos pelo adicional de periculosidade”.
A indústria do videogame não perdeu a oportunidade, e deu seu pitaco no projeto inglês. O gerente de produto da CEGA, Todyoro Nagrana, foi objetivo: “Se ninguém mais vai morrer nas batalhas, e vai vencer quem for mais hábil no joystick, então para que construir efetivamente o avião? Dá para resolver tudo numa lan-house".

Saturday, July 10, 2010

Pedido Expresso


No Black Dog, sem direito a perguntas.

- Quanto é o cachorro-quente simples?
- 5 reais. (registra)
- E o tradicional?
- Cancelo o simples? (chama o mestre dos caixas)
- Eu não tinha pedido ainda, era só uma pergunta.
( Pedido cancelado, em silêncio registra o tradicional )
- E o simples duplo, quanto é?
- (para o chefe) Ele mudou de ideia de novo, quer o simples duplo agora. Cancela pra mim?
- ?! Mas eu não...
- 6 reais. Dinheiro ou cartão?

E depois ainda veio o lanche errado.

Tuesday, July 06, 2010

Do Fracasso

 

O filósofo Sponville escreveu que “a busca da felicidade é a coisa mais bem distribuída do mundo”. Deve ser verdade. Parafraseando o francês, também parece verdadeiro que o fracasso é a “segunda coisa” mais bem distribuída no mundo. Sucesso e fracasso são ditos faces de uma mesma moeda, o que de modo algum procede, porque o segundo é onipresente, enquanto, o primeiro, privilégio efêmero de alguns poucos. Juntando uma e outra frase, o pensamento e sua paráfrase, parece saltar aos olhos um pessimismo fatal. Absolutamente. Há uma falsa dicotomia entre as orações, análoga à da comparação com a moeda. A desgraça e o triunfo são ambos impostores, e não renhidos rivais. Não obstante, este último raciocínio (o da falsa dicotomia) é, além de verdadeiro, reconfortante, e, portanto, otimista - pois de outro modo seria improvável atingir a felicidade através do sucesso, e a tão bem distribuída busca resultaria no mais retumbante e universal fracasso.

O poema “Se”, de Rudyard Kipling, e seus versos expostos na entrada da quadra central de Wimbledon:

"Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.
(...)
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!"



Texto dedicado à Seleção Brasileira na África, que ao contrário da de 2006 caiu honrando a camisa.

Thursday, July 01, 2010

DDC, Distúrbio de Déficit Cultural


Em minhas últimas discussões culturais, ao trabalho e entre amigos, tenho percebido que passei a sofrer de DDC, e o quadro é sintomático: leio muito pouco, e do que leio esqueço grande parte. Invejo quem se recorda da trama e dos detalhes de romances que leu há anos. Dos filmes nos quais determinada atriz atuou. Das teorias sustentadas por x ou y filósofo.
O diagnóstico do distúrbio é nebuloso, e via de regra descamba para a subjetividade. Depende, ainda, do seu círculo de amizades e exercício profissional. Outrossim (taí uma boa palavra, mas que não quer dizer nada), aí vão alguns pointers para você diagnosticar o seu. Leia a lista e veja se você se identifica. A ANVISA adverte que duas ocorrências bastam para identificar o DDC. Três ou mais configuram Síndrome – a SDC. Pode ser o caso de se consultar na biblioteca mais próxima.

- Em uma conversa sobre cinema, você rebate o argentino “O Segredo de seus Olhos” com “Homem de Ferro 2”.
- Revisitar os clássicos, para você, é assistir Esquadrão Classe A.
- Numa discussão sobre a conjuntura econômica, sua contribuição se resume a “É, o mercado imobiliário está mesmo aquecido”. Não importa se o assunto é o mercado MObiliário.
- Paulo Skaf? É construtora?
- Quando se debatem as opiniões de articulistas, você só cita Diogo Mainardi ou Arnaldo Jabor.
- Bach, Chopin, Liszt e Schopenhauer. Quem é o estranho no ninho?
- Índio da Costa?! (Certo, esse ninguém conhece, nem o Serra)
- Lendo o livro: “Mas Alice no País das Maravilhas não era pra criança?”. Vendo o filme: “Mas como assim é em 3D e não é desenho? Aliás, não era pra criança?”
- “Eu li na Veja”.
- Twitter? Facebook? Não, obrigado. Já tenho Orkut.
- Citar a Anvisa não te soou estranho. E que diabos são pointers?

    ( Em breve a continuação do último post )

    Monday, June 28, 2010

    Procura-se



    CONTRATA-SE AVENTUREIRO PARA PROGRAMA DE TV. INGLÊS FLUENTE. ÚLTIMO APRESENTADOR MORREU MASTIGADO POR UMA HIENA. EXPERIÊNCIA COM ANIMAIS IMPRESCINDÍVEL DESEJÁVEL. PAGA-SE BEM.

    O diretor fez as correções necessárias e mandou que se divulgasse o anúncio. Tinham (muita!) pressa para substituir o finado apresentador a tempo da estréia.

    ( Continua... )

    Wednesday, June 23, 2010

    Impressionando

    O velho clichê da "primeira impressão que fica" não deve passar mesmo de um recurso retórico. Quantas vezes, afinal, não nos precipitamos sobre algo ou alguém apenas para mudar de ideia logo depois? O mito do primeiro julgamento talvez prospere porque não existe um meio-termo para uma primeira impressão, tampouco uma segunda chance para causá-la – e daí sua aparente definitividade. O primeiro olhar que lançamos, conquanto modificável pelos que seguem, é, via de regra, carregado de absolutismos. Sim ou não, sem matizes. Preto no branco.

    (No vídeo, uma primeira impressão difícil de apagar)

    Monday, June 21, 2010

    Encurtador de URL


    E ñ é q func. o encurtad/? Fik bem + fcil linká na net. Agora só flt dimin. os posts :)

    Thursday, June 17, 2010

    No Starbucks


    - Aceita caramelo no mocha?
    - Olha o respeito, minha filha!

    (Na foto, o mocha)

    Wednesday, June 16, 2010

    Crônicas da Copa - Do enviado à Coreia


    (Tive acesso ao conteúdo da reunião de cúpula que decidiu pela transmissão do jogo Brasil e Coreia do Norte no território do nosso adversário. Segundo um dos partícipes, as discussões foram tensas e cheias de reviravoltas, mas prevaleceu o bom senso. Ou o mal-entendido.)

    Pyongyang, ante-sala do ditador.

    Gabinete alvoroçado. Os 48 assessores particulares do líder supremo divergem. A discussão é acalorada. A corrente de Kil-Pa-Ryu sustenta que a derrota é uma vergonha, e que não deviam levar o assunto ao chefe. Ele que lesse mais tarde no diário oficial e mandasse decapitar os 34 editores da Redação, se achasse conveniente. Mi-Foo-Dil pensava o contrário. Que o comandante se refestelaria em júbilo com o feito dos guerreiros da nação, e seu bom humor iluminaria os caminhos do povo norte-coreano como os raios de sol aquecem o governo revolucionário. Talvez lançasse mísseis comemorativos. Afinal, enfiavam 0 a 2 nos pentacampeões do mundo.
    O ditador ordenara que se gravasse o jogo. Em caso de “resultado favorável”, o jogo seria retransmitido à nação. Mas que diabos era um resultado favorável? Kil-Pa-Ryu e Mi-Foo-Dil polarizavam as discussões ao redor do televisor preto-e-branco que transmitia o jogo ao vivo, capturando o sinal de uma emissora dos traidores capitalistas sul-coreanos. Quando de repente é gol. GOOOOOOOOOOLLLLL!!!!!
    Escutam o grito da sala do Grande Líder. Mi-Foo-Dil estava certo. Cada um dos assessores correu aos seus secretários, que expediram um ofício para a TV do Estado instruindo que se transmitisse o jogo imediatamente. Muito em breve as 96 vias do documento chegariam à emissora e os norte-coreanos assistiriam a mais este triunfo do regime. Precipitaram-se, porém.
    Foi o árbitro apitar o final da partida para um novo barulho partir da sala de comando, e desta feita não era amistoso. Um palavrão ininteligível seguido do telefone atirado contra a parede. A derrota honrosa, como viram, não fora suficiente. Silêncio sepulcral no gabinete. Kil-Pa-Ryu esboça um sorriso de meia-boca. Esteve certo desde o início. Morto, é possível. Mas certo.
    O líder supremo desliza um bilhete por baixo da porta.
    “TODOS OS ASSESSORES. QUEIRAM COMPARECER À MINHA SALA. AGORA.”
    Entraram todos, e quando um burro fala os outros abaixam a orelha. De costas, olhando para a parede onde havia uma fotografia do saudoso Presidente Eterno, não se dignava a encarar seus súditos.
    - Avisem a estatal que não vamos poder estar retransmitindo o jogo da seleção na Copa.
    Já era tarde, não havia tempo para desfazer o erro. Estavam em maus lençóis. E nunca é bom estar em maus lençóis na Coréia do Norte. Havia no grupo, entretanto, um exímio imitador. Kim-Ka-Gada chamou para si a responsabilidade, adotando um sofisticado estratagema que impedia o Grande Líder de identificá-lo. Imiscuindo-se entre os demais assessores, aproveita-se que o chefe está de costas e o comunica da situação, numa perfeita imitação do popular apresentador local Fals-Ton-Sil.
    - Ô loco meu, brincadeira. Precisamente às quatro e vinte e dois. Olha o que fez a besta, já mandou botar o jogo no ar, bicho.
    O tirano vira-se em fúria, medindo o grupo. A tropa de assessores está compactada naquela sala diminuta, e o engraçadinho encoberto no meio deles. Velho e doente, o ditador escuta e enxerga mal.
    - Quem ousa?! Estão todos...
    - Olha a fera aí meu. Esse monstro sagrado do cenário mundial.
    - Vou chamar imediatamente o...
    - Esse exemplo de honestidade, humildade e competência, agora no Arquivo Confidencial.
    - Aaaaaaaaaarggghhh!! Primeiro de tudo, tirem o jogo do...
    - Se vira nos 30, meu. Quem sabe faz ao vivo.
    - (...)
    - (...)

    [...]

    - Quer parar de me interrom...
    - Ô loco meu.
    - Chega, basta!! Deixem tudo como está e saiam daqui!
    - Essa reunião foi um oferecimento de ChinaInvest. Crédito fácil para ditadura socialista é na ChinaInvest.

    (O acesso à cúpula norte-coreana é bastante restrito, de modo que não pude confirmar o relato. Mas a fonte é quente.)

    Monday, June 14, 2010

    Drive-thru da fé


    Semana passada, na Domingos de Morais. Congestionamento, carros parados. Uma moça se aproxima e oferece uma oração sem sair do carro, basta passar no drive-thru da Igreja.
    É sempre muito fácil criticar esse tipo de iniciativa, ainda mais quando se tem reservas quanto ao modus operandi da congregação em questão. A reflexão espiritual demanda calma, silêncio e tempo. Não combina com um drive-thru. Mas tudo bem, a correria do dia-a-dia é mesmo uma dificuldade que não dá para ignorar. Nesse sentido, aproveito para sugerir algumas novas ideias para facilitar o seu contato com Deus:

    - Confissão on-line: chat-rooms com pastores logados 24 horas, oferecendo o que há de mais moderno em aconselhamento religioso. É conexão a serviço da confissão. (Não se esqueça de conversar no reservado)
    - Terço Eletrônico: aplicativo para i-phone. Deslize as contas com recursos de touch screen e envie seu high score para o site da Igreja.
    - Hóstia Delivery: Remissão em domicílio. 28 minutos entre a consagração e a comunhão. Ou o seu dinheiro de volta. Consulte o cardápio.
    - Sermão twitter: Os sermões intermináveis chegaram ao fim. Siga o pastor e fique por dentro dos novos dogmas da Igreja em até 140 caracteres.

    Quem tiver mais sugestões, que fale com o bispo. Ou o adicione no Facebook.

    Tuesday, June 01, 2010

    Os comerciais na Vida Real


    - Chefe, tivemos um acidente. Mandamos um carregamento de Skol pra Argentina.

    - Ih, rapaz. Faz o seguinte, você vai atrás de cada uma dessas latinhas e traz aqui de volta. Geladas. E ah, rapaz... Depois disso você passa no RH.

    Wednesday, May 26, 2010

    De como constranger um cliente


    No McDonald´s:

    - O senhor gostaria de estar doando seu troco para as crianças com câncer?
    - Não, eu sou um monstro.

    Thursday, May 20, 2010

    SP Underground


    Chego atrasado ao metrô, o que tem seu lado bom: vagões muito mais vazios. Da estação Santa Cruz até a Ana Rosa, tudo normal, assentos disponíveis... Faço a baldeação (incrível como esse termo soa caipira, parece que estou pegando metrô na roça) para a linha verde, e é onde sou surpreendido.
    Vagão vazio no sentido Vila Madalena quando, subitamente, uma horda ocupa todo e qualquer espaço livre. Mal consigo respirar, quanto mais me movimentar.
    Próxima parada: Brigadeiro, o vagão vai esvaziar, penso eu. Mas ninguém desce! Estatisticamente isso deve ser muito difícil de acontecer, a linha verde não tem muitas paradas até a Vila Madalena. Não consigo enxergar o nome das estações, e assim começo a nutrir a certeza de que embarquei no sentido contrário.
    A seguir, Trianon-Masp (será?), meu destino. Estou longe da porta, apostando no deslocamento em conjunto, mas ninguém (ninguém!) vai descer ali. Como pode? Esse pessoal trabalha onde? Tenho que batalhar minha passagem até a porta, desesperançoso de que desembarcaria na estação correta.
    Desço. Não me enganei, estava no lugar certo. Olho para os demais vagões do trem: semi-desertos, enquanto o que eu estava segue abarrotado de gente.
    E a partir daí o dia voltou à normalidade.

    Tuesday, March 02, 2010

    Os pagodeiros do gelo

    Por que diabos precisa de quatro "atletas" pra descer no trenó do bobsled?



    Saturday, February 27, 2010

    Precisão suíça


    Pedindo um lanche na padaria:


    - Por favor, um bauru e um suco de laranja. Um não, dois... Qual o tamanho do suco?

    - São trezentos e quatro ml.

    Penso ter ouvido 304. Duvido. Deve ser 340, ou 400.

    - Você disse quanto?

    - O copo tem 304 ml, senhor.

    - Hmm.... 300 então - arredondo, em desafio.

    - É... - e fez cara de contrariado, ou decepcionado. Não sei bem precisar.



    E olha que nem veio cheio até a boca.

    Monday, February 22, 2010

    No Tênis Clube

    Visita ao clube, intenção de adquirir um título (preço promocional, não estou podendo tanto). O interesse, para mim, não poderia ser outro: jogar tênis. Conheço as quadras, cinco, de saibro. Em bom estado, aparentemente, conquanto encharcadas. Como bom nerd, ainda que em fase de recuperação, peço para conhecer a sala de leitura. Com as chuvas que desabam em São Paulo religiosamente na hora em que deixo o serviço, é bem provável que eu passe boas horas naquele recinto, imagino. “A sala de leitura fica na biblioteca, é por aqui. Um lugar muito tranquilo”. A biblioteca, logo vi, não tem livros, mas troféus, em armários com janelas de vidro. Essa não foi, porém, a maior surpresa. Havia, na sala de leitura, uma horda de pré-adolescentes, meninos e meninas correndo descalços sobre o sofá, atirando almofadas, aos gritos. Um grupinho, um pouco mais velho e um pouco mais ao fundo, joga truco animadamente. Nada contra. Mas na sala de leitura?! RS O rapaz do clube constata, constrangido: “É, hoje não está muito tranqüilo, como podemos ver.” De fato.

    Saturday, February 20, 2010

    Aí sim

    Via de regra só posto produções próprias por aqui, mas esse vídeo vale a pena ser assistido:

    Thursday, February 18, 2010

    Porta automática


    19 horas, chuva torrencial na Paulista. Sem guarda-chuva, procuro refúgio no interior do Banco Real. As cadeiras são estofadas, confortáveis, e o teto de vidro permite que se acompanhe a evolução da chuva. Os minutos vão se passando e os funcionários começam a deixar o banco, de volta para casa. De súbito, para minha surpresa, a porta da frente (dessas iguais às lojas de comércio) começa a descer automaticamente, comigo do lado de dentro. É a hora da dúvida. Devo correr, jogar a mochila, atingir a rua e pegar o chapéu de volta antes que a porta desça por completo, no melhor estilo Indiana Jones? Sim, porque se fosse um funcionário do banco o responsável por tudo aquilo eu poderia argumentar para que esperasse por mim. Diante da máquina não há o que negociar. Olhei em volta, havia mais 3 funcionários ainda do lado de dentro. Ponderei que era preferível manter a compostura e permaneci sentado. A porta parou, descendo até a metade, apenas. Não passara de um aviso de que o expediente estava por terminar. É, não foi dessa vez que pude por à prova minhas habilidades de fuga.

    Wednesday, February 10, 2010

    Na Pamplona

    Essa semana, num trecho tranquilo de uma das mais movimentadas ruas da região da Paulista. Um casal, ele ao encontro dela. No caminho, desfila por entre eles uma garota de parar o trânsito. Ele não se contém, pára, torce o pescoço. Só falta assobiar, ou fazer um gracejo qualquer. À distância, antevejo a reação furiosa da namorada. Que nada... Tão logo ele se aproxima, é recepcionado carinhosamente. Olhando para a rival, ela ainda dispara: "Isso é tudo banha". Compreensiva, não?

    Thursday, October 04, 2007

    Charles Bronson


    Nunca entendi o sucesso do Charles Bronson, esse velhinho de cara simpática na foto. Ele fazia filmes de ação com idade e físico para ser pai do Chuck Norris. Como ator também não era dos mais dotados. Uma espécie de "cigano Igor" norte-americano: a mesma expressão valia para qualquer cena. Na da imagem acima podia ser que tivesse ganhado na loteria, ou recebido a notícia de que sua família fora chacinada. Nos seus filmes, vingança, ao lado do estupro, eram dois temas obrigatórios. Não pode existir um filme do Charles Bronson sem estupro. Mas tudo bem, no final ele se vinga. Pode reparar na expressão vingativa aí em cima.

    Monday, April 09, 2007

    Encontro em família


    Este texto destoa dos demais publicados neste blog, pois ao contrário dos anteriores (exercícios estilísticos sem importância ou pretensão alguma senão a de entreter autor e leitor), este que agora compartilho com os que se derem ao trabalho de lê-lo é carregado de intenções as mais urgentes. Atendendo tardiamente ao conselho de Dona Julieta (uma sensitiva muito amiga de minha mãe) negligenciado por mim no passado, contarei um evento que me ocorreu nesta madrugada, e que me atormentou a alma a ponto de torná-lo público neste espaço. Minha esperança é de que, segundo a crença popular, ao narrá-lo para um número suficiente de pessoas estarei para sempre livre dessa presença que me aterroriza. Serei sucinto tanto quanto possível. Sem brincadeiras ou finais engraçados e surpreendentes, posto que com certos assuntos não se brinca. Peço-lhes a gentileza de que leiam - e se possível comentem, para eu saber que leram.
    Neste domingo de Páscoa, minha avó Jandira chegou ao almoço em família trazendo consigo algumas partituras antigas que fiquei sabendo serem de autoria do seu pai, meu finado bisavô Benedito Bueno, que não cheguei a conhecer em vida. Ela insistiu para que eu as tocasse no piano, mas recusei de pronto e disse a ela que pedisse para a minha mãe. Já faz algum tempo que não sento ao teclado. Precisaria estudar as peças um pouco que fosse antes de poder executá-las. Além do mais, já era hora do almoço. Minha mãe também fez pouco causo das partituras, enciumada porque minha avó fizera questão de entregá-las primeiro a mim e não a ela.
    Farei aqui um parêntesis porque não são todos que sabem da minha relação com o meu bisavô: desde que comecei a aprender piano progredi bastante rápido nas técnicas da leitura, execução e interpretação musicais. Não demorou para que em família me comparassem ao meu bisavô “Bedito” Bueno. Escutei diversas vezes, de diversas bocas: “É o espírito de Bedito que baixou, seu bisavô tocava e compunha muito bem”. Fiquei, para não escolher um termo menos honroso, intrigado com as referências constantes ao meu bisavô, posto que estudava música de madrugada, quando todos dormiam, e freqüentemente sentia-me como se observado por trás do vidro que divisava o piano do resto da casa. Conforme progredia nos estudos, a sensação estendeu-se aos outros sentidos, sem contudo estimulá-los a ponto de instigar uma percepção concreta. Bedito Bueno tinha suas músicas e compositores prediletos. Clair de Lune, de Debussy, rendia ruídos de respiração e – pasmem – nuances de um rosto por trás do vidro. Cortei a peça do repertório. Não demorou para que eu abrisse mão do repertório todo, e conseqüentemente do piano, quando, em uma tarde qualquer, vi de canto de olho que um senhor me assistia praticando uma música nova. Assumi que fosse meu pai. Mas, para minha surpresa, ele sequer estava em casa. Fecha parêntesis; os antecedentes parecem ter sido explicados satisfatoriamente, e não faço gosto em alongar-me neles.
    Findo o almoço de Páscoa e a confraternização familiar, aproveitei o resto de tarde para um cochilo descompromissado que acabou por estender-se mais que o devido, roubando-me as horas do sono noturno. A noite avançava e fiquei sozinho em casa, sem qualquer passatempo que me entretivesse o suficiente para esperar que o sono voltasse. Andando pela casa, fui dar com as partituras antigas na mesa da sala.

    “Sonho Desfeito (Morte de um Amor)”, música de Benedito Bueno de Camargo, letra de Carlos Hanicker.

    Desperta para o passado
    Vem ouvir esta canção
    Nascida do coração
    De quem jamais te esqueceu;
    Pois saibas que eu ainda guardo
    Na alma o teu retrato
    Sinto ainda o espinho ingrato
    De um amor que não morreu

    Vem ouvir nota por nota
    O canto da inspiração
    Acompanhado ao violão
    Pelas mãos do teu cantor;

     
    A música era de 1933, dedicada às “gentis senhorinhas Adélia, Joanna, Lourdes e Odette Gardezani”. Segundo minha avó, a música originalmente fora composta e letrada em homenagem a uma namorada do meu bisavô. Findo o namoro, trocou-se a letra, o título e a dedicatória. Não sei explicar o porquê, mas um impulso fez com que, a despeito das implicações previsíveis, eu levasse a partitura ao piano. Sabia que se Bedito manifestava-se em peças clássicas, que dirá diante de uma composição própria, carregada de história e sentimentos? Era previsível que aparecesse. O que não se podia prever – e confesso, temia – era sua reação. Mas nem o medo é maior que o tédio, e àquela altura eu não tinha nada melhor para fazer senão ler um livro sobre tabagismo. Da parte de Bedito não posso saber das suas opções, suponho que fossem melhores do que as minhas. Mas que executem uma peça dele é algo, creio, bastante raro. Sim, era seguro que viria.

    Achei por bem preparar o ambiente, pois sou previdente. E tradicional, pois também não sou dado a inventivas: um crucifixo, o terço e a Bíblia eram suficientes. Apaguei as luzes todas, menos uma luminária apontada para a partitura: prefiro as luzes apagadas a vê-las piscando assustadoramente. Tudo pronto, faltava tocar a peça. Como disse, estava bastante enferrujado, pois há tempos não tocava; demorou para que saísse dali alguma melodia, e os primeiros trechos vieram com muita dificuldade, além de um tanto descompassados. Com um pouco de paciência e persistência, logo consegui cobrir o estudo da peça toda, de modo que comecei a executá-la por inteiro, sem maiores trancos ou incorreções. Toquei a música uma, duas vezes inteiras (ainda errando bastante) e nada. A terceira também passou em branco. Mais aliviado do que decepcionado, já ia me levantando e desistindo da empreitada quando percebi uma sombra cruzando a extensão do vidro e parando atrás de mim enquanto a luminária piscava assustadoramente. Era o fantasma do meu bisavô. Não disse nada, tenho certeza. Mas era como se dissesse: “Toca”. Assim, seco. Para não fazer uso de adjetivos que possam me depreciar, eu diria que fiquei nervoso. E a música, que já não fluía com desenvoltura, empacava a todo instante, forçando-me a reiniciá-la a todo o momento. Notei que o fantasma impacientava-se, pois se aproximava de mim a cada novo erro. Urros, ouvi urros. As luzes ao lado acendiam-se e queimavam em seguida – o que era pior do que se ficassem apenas piscando. Fui ficando cada vez mais nervoso, e, assim, errava mais. O fantasma aproximou-se definitivamente. Não ousei encará-lo de frente, mas pelo reflexo no piano: era todo branco, brilhava suspenso no ar. Repousou suas mãos nos meus ombros, mas não houve contato. Só o frio. Reclinou a cabeça, e falou no meu ouvido. Bem baixo e pausado, sussurrando...
    “Por quê você não tenta o violão?”

    Monday, September 18, 2006

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    Saturday, July 01, 2006

    Morte Súbita




    Faleceu na véspera da final da Copa do Mundo, e a família, pouco afeita ao futebol, marcou o enterro para o mesmo horário do jogo – levando ao desespero os que, por cordialidade ou obrigação familiar, se comprometeram a prestar as últimas homenagens a Seu Jorge, o moribundo – este sim, em vida, um irascível torcedor do esporte bretão. Nos últimos tempos (não havia quem em vida pudesse desmenti-lo) vangloriava-se de ter assistido à final da Copa de 50 no Maracanã e acertado um radinho de pilhas na cabeça do bandeirinha, que corria junto à lateral do campo. Atirara, na verdade, um sapato. E errara por uns 20 metros.
    Os presentes chegaram tão tristes quanto impacientes à capela do cemitério onde o corpo estava sendo velado. O céu de nuvens carregadas prometia chuva forte para breve. A intenção oculta entre os presentes era que se enterrasse logo o defunto e fossem todos assistir pelo menos ao segundo tempo no conforto dos seus lares. A família mais próxima, porém, teimava em prolongar-se nos lamentos ao que batera as botas - “Era ainda tão cheio de vida, coitado” – impacientando a ala, cada vez mais numerosa, dos que pressionavam pelo início da cerimônia.
    Os primeiros pingos de chuva fizeram com que até o padre aderisse aos lobistas e ensaiasse uma benção breve ao que se curou da surdez. O primeiro tempo já estava no final quando a chuva, cada vez mais forte, inviabilizou as rápidas escapadas para tomar um ar em que se podia acompanhar um pouco do jogo no rádio, ou perguntar da partida para algum amigo via celular. Zero a zero. Alguns mais ansiosos brincavam com a alça do caixão aberto como quem bate à porta naqueles casarões antigos. “Alguém aí? Vamos, tá na hora”. A situação ia chegando a tal ponto que não havia outra alternativa senão levar Seu Jorge para o buraco o mais rápido possível. Já iam abotoar o paletó de madeira quando um relâmpago caiu junto à capela, seguido de um estrondo medonho. Com ele o dilúvio: chovia a cântaros, seria impraticável carregar o presunto até o túmulo. Ficariam ali, presos. Dentro em breve ilhados. O jogo avançava no segundo tempo e os torcedores perderam o pudor em acompanha-lo pelo rádio às vistas do morto. O padre lembrou-se do televisor na sacristia e escapuliu, sorrateiro, para acompanhar a definição da partida. A manobra não passou despercebida, e logo a saleta ficou lotada de gente. A família objetou que era uma falta de respeito que se deixasse o morto sozinho. A situação foi aconchega-lo num canto - não sem dificuldades pois o caixão mal cabia na sala.
    Foi só lá pelos 30 minutos do segundo tempo que estavam todos devidamente acomodados para assistir a peleja. O clima estava animado, e cada lance do selecionado canarinho era acompanhado por “UUUUs”, vaias e aplausos. Apenas Seu Jorge esteve mais contido até então. Brasil na defesa: os torcedores batiam 3 vezes no caixão para afastar o azar. A cada ataque perdido batiam novamente, decepcionados.
    Com o término do tempo regulamentar e dos acréscimos, o árbitro suíço posicionava-se para encerrar a partida no centro do campo quando um lançamento magistral, partindo da intermediária defensiva, deixou o centroavante tupiniquim na cara do gol. E na cara do gol é gol!
    - GOOOOOOOOOOOOOL! – o velório explodiu em festa
    - Priiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!! – não valeu.
    O juíz havia apitado o encerramento na longa trajetória percorrida pela bola durante o lançamento. Assistiram todos à cena embasbacados, num silêncio sepulcral enquanto o speaker transmitia a interpretação do árbitro na jogada.
    Seu Jorge ergueu-se do caixão, descalçou o sapato e o atirou com raiva e força sobrenaturais em direção ao juiz acossado pelo time brasileiro na imagem da telinha.
    - Filho da Putaaaaaaaaaa!!!!!!!!
    Acertou. Perderam a prorrogação.

    Saturday, November 19, 2005

    He-man


    “Esse é o cara!”. Deve ser mais ou menos essa a tradução de He-man, porque qualquer outra tentativa para o português soa muito estranha aos ouvidos e à gramática.
    Dia desses, enquanto assistia Globo News, o controle escorregou acidentalmente e o canal foi parar no Cartoon Network (ali do lado, para quem não sabe) onde estava passando a nova versão animada de He-Man.
    Quase nada mudou. Os vilões e os aliados do Reino de Eternia continuam os mesmos de sempre. Minto... duas coisas mudaram: o corte de cabelo estilo “cortina” do He-man agora está mais moderno (já não fazia sucesso nem entre as crianças da minha época) e muitos dos personagens tiveram seus nomes trocados para o inglês: Esqueleto virou “Skeletor”, e Mentor, “Man-at-arms” (!) ou coisa do gênero.
    O príncipe Adam continua um fracasso aos olhos da corte, sempre fugindo na hora que o bicho pega. Também pudera... quando um herói tem duas identidades, pelo menos uma delas é necessariamente um fracasso. Por experiência própria, sabemos que dar conta de uma só personalidade já é difícil. Imagine então de duas, sendo que uma delas tem que ser heróica e a outra, pelo menos, não pode comprometer.
    Outra coisa que permanece essencialmente igual é a transformação de He-Man. Quando Adam se transforma no protegido de Greyskull, o efeito daquele raio que o atinge assemelha-se ao de pegar no sono dentro de uma câmara de bronzeamento. He-man fica mais moreno, com a voz grossa e menos roupa. Já acorda se espreguiçando, a voz cavernosa... “Pelo poderes de Greyskull!! Que horas são? Dormi muito? Nossa, estou todo queimado... Eu tenho a forçaaaaa!!”O mais impressionante é que ninguém no Reino percebe as semelhanças entre Adam e He-man. Uma vez no Natal meu pai foi ao banheiro bem na hora que o Papai-Noel chegou. Não percebi nada na época. Mas ele estava de gorro, barba branca, barriga postiça... Se tivesse voltado mais moreno, falando grosso e com menos roupa, certamente eu teria percebido alguma coisa. Ficaria um pouco assustado, é verdade. Mas se o presente fosse bom, tudo bem.

    Wednesday, November 09, 2005

    Dos rodízios e buffets



    All-you-can-eat. Tentador. Coma o máximo que conseguir, porque o preço é o mesmo. É por isso que as pessoas param de comer um dia antes quando sabem que vão a um restaurante desses. Querem fazer valer o investimento. O dono do restaurante, é claro, está ciente da situação. Ele tem medo que você coma demais e dê prejuízo. Você está lá para dar prejuízo.
    Quando se sai para jantar, normalmente o que se quer é um ambiente agradável, com boa comida. Mas quando você pode comer o quanto quiser, o ambiente e a qualidade pouco importam. O que você quer é comer.
    Rodízios de churrascarias são exemplos interessantes. As pessoas chegam pálidas, brancas de fome. E saem afrouxando as calças. “Comi demais, chega... foi bom que o garçom esqueceu da gente ali no final, senão teria comido o dobro”. Ele não esqueceu. Faz parte do script. No começo, eles procuram servir o máximo de carne possível. A idéia é que você coma rápido o suficiente para ter uma congestão sem ter ingerido muita comida. Aqueles cartõezinhos de sim/não, verde/vermelho não passam de ilusões de controle: experimente insistir no cartãozinho vermelho depois do primeiro prato de salada, ou deixá-lo no verde depois que o coração de frango passou pela terceira vez. Inútil.
    Alguns restaurantes possuem o requinte de servir também a bebida à vontade por um preço fixo – o refil. Mas o efeito desse estratagema fica sujeito ao famoso paradoxo das conseqüências: os mais fracos podem se encher com o refrigerante e poupar as peças de picanha-nobre; já para os profissionais – que são os que importam - a bebida ajuda a cimentar e compactar o bolo alimentar, abrindo espaço para mais comida.
    Nesses casos o melhor a fazer é parar de servir. Depois da bonança inicial, o ritmo vai caindo até o ponto que os garçons parecem ignorar completamente aquela seção. É como se a comida da casa estivesse contaminada por alguma doença contagiosa, e os fregueses precisassem ficar um tempo de quarentena antes de serem liberados para pagar a conta. Por isso que você nunca vê um garçom provando a carne escondido – eles nunca sabem dizer se a peça está bem ou mal passada. Cortam primeiro e vão botando no seu prato, sangrando... “bem passada pra você?”. Isso quando a pergunta não vem com aquele ar de desdém, como se comer carne vermelha fosse prova de virilidade. Quem ele quer enganar? Nenhum de nós dois caçou aquela vaca, e mesmo se fosse o caso não teria sido uma caçada das mais emocionantes. “A mocinha quer que passe um pouco mais?”.
    O buffet all-you-can-eat diz muito sobre a classe e o requinte de um restaurante. Nos mais fuleiros, pagam-se as sobras. Por peça, no caso dos rodízios japoneses - e por peso mesmo, naqueles onde o almoço custa $4,90. “Onde você pensa que vai? Tem pelo menos umas 100 gramas aí nesse seu prato. Não gostou do gato? Azar o seu... Você me deve $0,50!”
    Acredito que o rodízio que mais se aproxime do ideal é o de pizzas: dificilmente param de servir, e se você quiser pode deixar as bordas de lado que ninguém vai pesá-las. Tudo isso, creio, graças ao advento da pizza doce. Ela restabelece a ordem natural das coisas: Salgado – Doce – Rua. São sempre enjoativas, que é para garantir que ninguém vai voltar para os pedaços salgados. Reparem que antes dos rodízios de pizza não havia pizza doce (nada na vida é por acaso...)
    Bom, agora chega que escrever dá fome. Ler mais ainda. Vai uma pizza de chocolate?

    Tuesday, October 25, 2005

    Dos medos infantis



    Toda criança tem medo de escuro. Qual fantasia perambula pelas suas mentes no apagar das luzes é difícil dizer. As histórias de mula-sem-cabeça, da cuca, do bicho papão e outras celebridades do mundo do folclore caíram em desuso há algum tempo e dificilmente ocupariam um lugar honroso no share of mind dos principais medos infantis. A derrocada do folclore nacional, creio, passa por uma ampla gama de fatores, sendo o principal deles a urbanização: o curupira é o protetor das florestas (desmoralizado, coitado), a mula-sem-cabeça dificilmente faria boas performances correndo no asfalto, e o lobisomem... o lobisomem é americano. Além do mais, os pais de hoje já não têm mais tempo ou paciência (tampouco algum talento narrativo, que sempre cai bem) para contar a história do homem-do-saco.
    De todo modo, as crianças continuam com medo do escuro. Parece lógico, portanto, que o eixo-do-mal tenha sido deslocado para um outro time de personagens. Mais modernos e antenados com as novas tendências. Aliás, à frente delas, pois em tempos de globalização eles já viajam universo afora. Não é minha intenção desprestigiar espíritos e fantasmas – até porque não quero represálias do lado de lá. Mas sempre tive mais medo dos extraterrestres - e creio não estar sozinho.
    Difícil precisar quando tudo começou. Mas os mais velhos se recordarão de uma noite fatídica em que o Fantástico, num ato de terrorismo, levou ao ar o vídeo da autópsia de um extraterrestre capturado morto após um acidente automobilístico com seu disco voador. Teria dormido ao volante? Não se sabe.
    Uma criança da época não tinha muita noção do que era um vídeo forjado. E mesmo que tivesse, era o Fantástico – ao lado do Gugu, expressão máxima da verossimilhança - quem bancava a história. Para a 3ª série aquilo era uma prova cabal da existência dos Ets. E eles não pareciam dos mais amistosos. Os causos dos colegas assustavam, sem dúvida. Mas, pessoalmente, nunca lhes dei muito crédito, pois contavam histórias as mais absurdas. Agora, diante de fontes fidedignas... noites em claro eram garantidas.
    No dia seguinte ao da reportagem, o clima na escola era de velório entre os que tinham assistido ao vídeo. Todos com olheiras da noite mal dormida. Alguns faltaram. O pânico que aquilo causava nas crianças assemelhava-se ao que uma fuga de capitais em massa causa nos operadores da Bolsa de Valores. Chegávamos estressados. No lugar das pastas 007, lancheiras. As mães aproveitavam a distração para rechea-las com legumes e outros vegetais. Mato. A partir daquele domingo, talvez mancomunado com a indústria hortifrutigranjeira, o Fantástico passou a exibir imagens de discos voadores semanalmente. O clima era de invasão, e já se espalhava por outro setores da mídia (Gugu incluso). Certo dia, na sala de espera do dentista, li numa revista depoimentos de pessoas abduzidas (o seqüestro intergaláctico, prática mais comum do que se imagina, como fiquei sabendo). Todas as noites, os Ets capturavam alguma criança para fazer experimentos científicos que só poderiam ser lembrados através da hipnose. Dispensei a anestesia, e entre uma obturação e outra, ponderava meu leque de opções: devia me preocupar em não ser pego ou em descobrir a verdade sobre o meu passado?
    O pior era que tudo isso acontecia num momento dos mais inoportunos, quando, em casa, eu havia sido deslocado para o meu novo quarto, que ficava muito longe dos demais e bem ao lado do Escritório - sabidamente um ponto de encontro de extraterrestres.
    Felizmente, o tempo passa e a tudo transforma, soprando longe os medos de criança. O Fantástico e o Domingo Legal hoje são programas sérios...
    E um dia, quando encontrar o Fábio Puentes, eu tiro a dúvida da abdução.

    Friday, October 21, 2005

    Do gol que até o Bobô faria


    (Baseado em fatos reais)

    Sempre fora um goleador nato, desde os tempos do primário. Matador, implacável. Gênio da pequena área e dos pequenos espaços. Uma pena que só marcasse em treinamentos e bate-bola descompromissados. Era o jogo valer alguma coisa (podia ser um misto e uma coca) que seu futebol sumia como o do Raí na seleção. Se todos na escola o observavam com desconfiança e sua carreira estava desacreditada, foi entrar para a faculdade que encontrou um novo alento: ninguém ali conhecia o seu lado bambi-tricolor. Exceto, claro, ele próprio.
    O time da faculdade de Medicina preparava-se para uma competição entre calouros que seria disputada em uma cidade do interior paulista. Durante a pré-temporada, credenciou-se como a principal esperança da equipe, tanto no salão quanto no campo. Em um treino, chegou a marcar 30 gols em 2 horas: de cabeça, pé direito, pé esquerdo, calcanhar, ombro, joelho... Impressionou tanto que o treinador preparou um esquema com apenas um atacante, para aproveitá-lo melhor. O matador não se comoveu com a confiança depositada nele. Pelo contrário. Do alto de sua grandeza de espírito, proporcionada pelo auto-conhecimento de que só os sábios desfrutam, sabia que falharia. E não havia nada que pudesse fazer. O melhor era tratar de arranjar uma saída honrosa.
    No jogo de campo, entrou com um pensamento fixo: contundir-se. Desde o início tentou em vão envolver-se em algum lance em que pudesse forjar uma contusão. Sem sucesso, correu os 90 minutos sem tocar na bola, escondendo-se atrás da marcação e reclamando que a bola não chegava. O placar foi um sonoro 4 a 0 contra.
    No dia seguinte, a hora e a vez do futebol de salão. Na quadra seria mais difícil esconder-se, pensou. Mas contundir-se era muito mais fácil. Na primeira oportunidade que teve, envolveu-se numa dividida mais ríspida e saiu mancando, numa performance que se não valia o Oscar pelo menos era digna de um Kikito de ouro (o do Festival de Gramado). Acompanharia o resto da partida do lado de fora, a fama de grande esperança e melhor jogador do time garantida por mais um ano, até o próximo campeonato. Sentado no banco de reservas, personificava a certeza da vitória roubada num lance fortuito. Missão cumprida, imaginava, enquanto do lado de fora as meninas traziam gelo para o seu tornozelo.
    Em quadra, o jogo era equilibrado. No finalzinho, jogo empatado, imploraram para que entrasse. “Vai lá, dá o sangue cara!! Dá o sangue pela faculdade!” Não dava a mínima para a faculdade ou o resultado do jogo. Mas considerou que não tinha nada a perder. Estava machucado e podia ficar mancando em qualquer canto da quadra que ainda sairia como o herói. Aquele que “deu o sangue”. Foi.
    A partida estava para acabar. Em uma bela jogada pela esquerda, seu companheiro livrou-se da marcação e atraiu a atenção do goleiro, que saiu em vão para tentar desarmá-lo, estabacando-se no chão. O artilheiro posicionou-se para receber o cruzamento, que veio certeiro.
    Ele e o gol.
    A bola vinha quicando, mansinha. Um daqueles lances em que um corintiano acredita que até o Bobô (quem não conhece, não perdeu nada) marcaria. Um cabeça-de-bagre tropeçaria na bola, empurrando-a para as redes. Não ele. Era um craque, e um gol devia se fazer com estilo. Enxergava na frente, antecipava. Como só os craques fazem. Enquanto a bola se aproximava, o plano todo na cabeça: faria como Romário, naquele gol contra a Holanda em 94. Daria um pulinho, os braços abertos, chutando a pelota num bate pronto, de leve. Com a bola nas redes, sairia comemorando pela direita, para os braços da torcida. O herói do time, goleador... que deu o sangue pela faculdade. Mancaria de preferência.
    Acontece que os deuses do futebol não quiseram assim, e o bate pronto fez com que a bola voltasse para a esquerda, de onde veio. Dessa vez, porém, para os braços do goleiro, que se levantava lentamente como quem tivesse certeza que buscaria a bola no fundo do gol. Contra-ataque, último lance. Gol do adversário. Derrota...
    Saiu mancando o tanto quanto podia. Os companheiros olhavam decepcionados, como se quisessem matá-lo. No lugar da faca um “tudo bem, você deu o sangue” rangendo os dentes.
    Recuperou-se surpreendentemente rápido da decepção. Uns 15 ou 20 minutos foram suficientes, quando já era hora de ir embora para casa. Voltaria de carona no carro de uma menina da Atlética, junto com alguns amigos que, como ele, estavam lá mais pela farra que pela competição. Antes, uma brincadeira: “Olha só... eu mexo assim – e fazia um movimento mínimo com o pé, acompanhado de um gemido de dor – e dói... Assim – mexia menos ainda – dói também... Mas quando eu mexo assim - passou a girar freneticamente o pé “machucado” – não dói nada!!! Hahahahhaha”
    Quase perdeu a carona. No semestre seguinte, na volta aos treinos, o treinador também não achou graça: “Você corre bem cara... que tal Atletismo?”