Thursday, October 04, 2007

Charles Bronson


Nunca entendi o sucesso do Charles Bronson, esse velhinho de cara simpática na foto. Ele fazia filmes de ação com idade e físico para ser pai do Chuck Norris. Como ator também não era dos mais dotados. Uma espécie de "cigano Igor" norte-americano: a mesma expressão valia para qualquer cena. Na da imagem acima podia ser que tivesse ganhado na loteria, ou recebido a notícia de que sua família fora chacinada. Nos seus filmes, vingança, ao lado do estupro, eram dois temas obrigatórios. Não pode existir um filme do Charles Bronson sem estupro. Mas tudo bem, no final ele se vinga. Pode reparar na expressão vingativa aí em cima.

Monday, April 09, 2007

Encontro em família


Este texto destoa dos demais publicados neste blog, pois ao contrário dos anteriores (exercícios estilísticos sem importância ou pretensão alguma senão a de entreter autor e leitor), este que agora compartilho com os que se derem ao trabalho de lê-lo é carregado de intenções as mais urgentes. Atendendo tardiamente ao conselho de Dona Julieta (uma sensitiva muito amiga de minha mãe) negligenciado por mim no passado, contarei um evento que me ocorreu nesta madrugada, e que me atormentou a alma a ponto de torná-lo público neste espaço. Minha esperança é de que, segundo a crença popular, ao narrá-lo para um número suficiente de pessoas estarei para sempre livre dessa presença que me aterroriza. Serei sucinto tanto quanto possível. Sem brincadeiras ou finais engraçados e surpreendentes, posto que com certos assuntos não se brinca. Peço-lhes a gentileza de que leiam - e se possível comentem, para eu saber que leram.
Neste domingo de Páscoa, minha avó Jandira chegou ao almoço em família trazendo consigo algumas partituras antigas que fiquei sabendo serem de autoria do seu pai, meu finado bisavô Benedito Bueno, que não cheguei a conhecer em vida. Ela insistiu para que eu as tocasse no piano, mas recusei de pronto e disse a ela que pedisse para a minha mãe. Já faz algum tempo que não sento ao teclado. Precisaria estudar as peças um pouco que fosse antes de poder executá-las. Além do mais, já era hora do almoço. Minha mãe também fez pouco causo das partituras, enciumada porque minha avó fizera questão de entregá-las primeiro a mim e não a ela.
Farei aqui um parêntesis porque não são todos que sabem da minha relação com o meu bisavô: desde que comecei a aprender piano progredi bastante rápido nas técnicas da leitura, execução e interpretação musicais. Não demorou para que em família me comparassem ao meu bisavô “Bedito” Bueno. Escutei diversas vezes, de diversas bocas: “É o espírito de Bedito que baixou, seu bisavô tocava e compunha muito bem”. Fiquei, para não escolher um termo menos honroso, intrigado com as referências constantes ao meu bisavô, posto que estudava música de madrugada, quando todos dormiam, e freqüentemente sentia-me como se observado por trás do vidro que divisava o piano do resto da casa. Conforme progredia nos estudos, a sensação estendeu-se aos outros sentidos, sem contudo estimulá-los a ponto de instigar uma percepção concreta. Bedito Bueno tinha suas músicas e compositores prediletos. Clair de Lune, de Debussy, rendia ruídos de respiração e – pasmem – nuances de um rosto por trás do vidro. Cortei a peça do repertório. Não demorou para que eu abrisse mão do repertório todo, e conseqüentemente do piano, quando, em uma tarde qualquer, vi de canto de olho que um senhor me assistia praticando uma música nova. Assumi que fosse meu pai. Mas, para minha surpresa, ele sequer estava em casa. Fecha parêntesis; os antecedentes parecem ter sido explicados satisfatoriamente, e não faço gosto em alongar-me neles.
Findo o almoço de Páscoa e a confraternização familiar, aproveitei o resto de tarde para um cochilo descompromissado que acabou por estender-se mais que o devido, roubando-me as horas do sono noturno. A noite avançava e fiquei sozinho em casa, sem qualquer passatempo que me entretivesse o suficiente para esperar que o sono voltasse. Andando pela casa, fui dar com as partituras antigas na mesa da sala.

“Sonho Desfeito (Morte de um Amor)”, música de Benedito Bueno de Camargo, letra de Carlos Hanicker.

Desperta para o passado
Vem ouvir esta canção
Nascida do coração
De quem jamais te esqueceu;
Pois saibas que eu ainda guardo
Na alma o teu retrato
Sinto ainda o espinho ingrato
De um amor que não morreu

Vem ouvir nota por nota
O canto da inspiração
Acompanhado ao violão
Pelas mãos do teu cantor;

A música era de 1933, dedicada às “gentis senhorinhas Adélia, Joanna, Lourdes e Odette Gardezani”. Segundo minha avó, a música originalmente fora composta e letrada em homenagem a uma namorada do meu bisavô. Findo o namoro, trocou-se a letra, o título e a dedicatória. Não sei explicar o porquê, mas um impulso fez com que, a despeito das implicações previsíveis, eu levasse a partitura ao piano. Sabia que se Bedito manifestava-se em peças clássicas, que dirá diante de uma composição própria, carregada de história e sentimentos? Era previsível que aparecesse. O que não se podia prever – e confesso, temia – era sua reação. Mas nem o medo é maior que o tédio, e àquela altura eu não tinha nada melhor para fazer senão ler um livro sobre tabagismo. Da parte de Bedito não posso saber das suas opções, suponho que fossem melhores do que as minhas. Mas que executem uma peça dele é algo, creio, bastante raro. Sim, era seguro que viria.
Achei por bem preparar o ambiente, pois sou previdente. E tradicional, pois também não sou dado a inventivas: um crucifixo, o terço e a Bíblia eram suficientes. Apaguei as luzes todas, menos uma luminária apontada para a partitura: prefiro as luzes apagadas a vê-las piscando assustadoramente. Tudo pronto, faltava tocar a peça. Como disse, estava bastante enferrujado, pois há tempos não tocava; demorou para que saísse dali alguma melodia, e os primeiros trechos vieram com muita dificuldade, além de um tanto descompassados. Com um pouco de paciência e persistência, logo consegui cobrir o estudo da peça toda, de modo que comecei a executá-la por inteiro, sem maiores trancos ou incorreções. Toquei a música uma, duas vezes inteiras (ainda errando bastante) e nada. A terceira também passou em branco. Mais aliviado do que decepcionado, já ia me levantando e desistindo da empreitada quando percebi uma sombra cruzando a extensão do vidro e parando atrás de mim enquanto a luminária piscava assustadoramente. Era o fantasma do meu bisavô. Não disse nada, tenho certeza. Mas era como se dissesse: “Toca”. Assim, seco. Para não fazer uso de adjetivos que possam me depreciar, eu diria que fiquei nervoso. E a música, que já não fluía com desenvoltura, empacava a todo instante, forçando-me a reiniciá-la a todo o momento. Notei que o fantasma impacientava-se, pois se aproximava de mim a cada novo erro. Urros, ouvi urros. As luzes ao lado acendiam-se e queimavam em seguida – o que era pior do que se ficassem apenas piscando. Fui ficando cada vez mais nervoso, e, assim, errava mais. O fantasma aproximou-se definitivamente. Não ousei encará-lo de frente, mas pelo reflexo no piano: era todo branco, brilhava suspenso no ar. Repousou suas mãos nos meus ombros, mas não houve contato. Só o frio. Reclinou a cabeça, e falou no meu ouvido. Bem baixo e pausado, sussurrando...
“Por quê você não tenta o violão?”

Sunday, September 17, 2006

Thriller, delivery (parte final)


Daquele momento em diante encontrei-me envolvido nos acontecimentos, que se desenrolavam com rapidez. Receio que se fosse possível exprimir em palavras o terror que tomara conta daquela sala quando da segunda aparição do vulto não encontraria no dicionário palavras adequadas, ou mesmo suficientes. Ainda que as houvesse, teriam que ser multiplicadas pelo número de pessoas na sala para transmitir com exatidão o clima exato naquele cômodo - pois refiro-me ao meu próprio horror e era dentre nós, como verão, a alma mais lúcida e ponderada. Aproximava-se da porta frontalmente a sombra, passo ante passo, sem pressa. Fitei a figura onde acreditava ficarem seus olhos, pois seu manto de trevas só nos oferecia seus contornos. Constituía um aspecto humanóide, sem dúvida, não fosse a cabeça desproporcionalmente grande em relação ao resto do corpo. Bastou que a notasse para que num movimento rápido com os braços retirasse a cabeça de cima dos ombros e a levasse, com um só gesto, junto ao quadril. A partir daqui já não posso saber ou especular das reações alheias, pois as minhas próprias recordo com dificuldade. Encará-lo nos olhos como intentava fazê-lo tornara-se obviamente mais difícil, pois para minha surpresa onde antes havia a cabeça grande surgira no lugar uma cabeça menor – esta, sim, fantasticamente humana. Virou-se de lado, deslocando-se lateralmente, deixando revelar uma protuberância robusta e quadrada nas costas que lhe conferia um aspecto ainda mais bizarro e monstruoso. Um temor mórbido percorreu-me a espinha quando desfez-se também daquele adendo, colocando-o cuidadosamente no chão. Com que intuito assumiria uma aparência tão próxima da nossa? Da minha...
Pareceu vasculhar a corcunda caída, levantando-se dali com dois discos finos empilhados numa das mãos espalmada. Não consegui atinar para a lógica naquelas ações aparentemente tão desconexas e misteriosas, mas executara-nas com aquela decisão autômata bastante diferente da resoluta, que requer empáfia e coragem mas é vacilante por natureza.
Tocou a campainha. Fui atendê-lo. Caminhei em direção à porta e encarei aquela máscara negra uma última vez antes de contemplar seu rosto por mim mesmo. Abri a porta, olhei-o nos olhos.
- Uma mussarela e uma calabresa?
- (...) Tem troco pra 50?
- Tenho sim.
- Viu? (...) Não pedimos refrigerante?

Sunday, August 06, 2006

Thriller, delivery


Era uma dessas noites frias de inverno. Os ventos uivavam desfazendo a neblina pesada que pairava no nível das casas enquanto as luzes da cidade ao fundo projetavam no pórtico imagens extraordinárias de plantas e galhos de árvore embrenhados na névoa, retorcidos pelo vento. Do interior da residência apreciávamos a paisagem lúgubre através da porta principal, de vidro. Conversávamos na sala, embalados por uma ou outra dose de álcool – mas decerto nenhum de nós havia se excedido a ponto de creditar-se o que ocorreria aos efeitos relaxantes da bebida.
O tema da discussão era a troca de histórias do desconhecido, de modo que talvez o que se sucedeu pudesse ser atribuído, isto sim, às nossas mentes sugestionadas pelas narrações fantasiosas que se seguiam – ou a um certo estado famélico, embora desconheça as implicações que um estômago vazio pode causar quanto à visão de alucinações. Os mais atentos – e impressionáveis – objetarão, neste ponto, contra meu julgamento antecipado do fenômeno, atribuindo-o desde já a uma alucinação. Suspeitarão haver motivos sobrenaturais naquilo que sequer foi narrado. Ocorre, no entanto, que para um fenômeno pertencer ao mundo natural basta que possa ser racionalmente descrito.
A história que se segue, e que lhes conto agora, não é sobrenatural - por não haver indícios que apontem neste sentido. Tampouco (acertaram os que discordaram) alucinação. O que presenciamos naquela noite fora, portanto, real. E irrefutável.
Como disse, narrávamos histórias do oculto. Sendo o nosso grupo razoavelmente heterogêneo, e como muitos de nós nos conhecíamos há pouco tempo, os relatos eram em sua maioria inéditos para quem os ouvia. Farei, aqui, uma ressalva que julgo importante: a escolha deste assunto um tanto sinistro fora meramente eventual, e surgira naturalmente. Não houve, creio, da parte de nenhum dos presentes a intenção deliberada de conduzir a conversa nos domínios do pânico e do terror. Pois bem. Entre um e outro “causo” (e havia os mais escabrosos) fazia-se um silêncio respeitoso, que servia a dois propósitos, sucessivamente: num primeiro momento ruminava-se a história contada, que, se bem-sucedida (não me recordo de relatos insossos, pois eram quase todos materialmente bons, e os ruins calhavam serem propostos pelos mais eloqüentes, funcionando como se bons o fossem) deixaria os ouvintes em um nível de tensão menor que o do final da história, porém maior do que no seu começo. Em seguida, puxava-se pela memória, ou pela imaginação (as narrativas mais verossímeis são, via de regra, inventadas) algum novo conto, mito, mistério ou lenda urbana. Como estávamos engajados nessa atividade já há algum tempo, naturalmente o nível de ansiedade naquela sala era consideravelmente alto, a ponto de qualquer ruído estranho – por mais natural que fosse – provocar calafrios até entre os menos impressionáveis. Como quando, da cozinha, o refrigerador começou a trabalhar num desses silêncios intervalares a que me referi. Rimos juntos, inocentes, do medo injustificado. Àquela altura não podíamos desconfiar quão breve seria aquele momento de descontração, e com qual facilidade nossas expressões coradas de alívio seriam consumidas pela lividez da visão do mais puro horror.
Do pórtico, um vulto cruzara com desenvoltura e rapidez toda a extensão da porta principal pela qual observávamos sombras e nuvens dançantes à contraluz. Os efeitos da iluminação sobre o vidro fosco e a velocidade com que se movia contribuíram para que tivéssemos nos deparado com um vulto na melhor acepção da palavra: aquele espectro indistinto trajava sombras! Naquele segundo ou dois da sua aparição acreditei estar privado dos sentidos, ou pelo menos deles duvidava em grande conta. Pensei ter sido sua única testemunha. Quisera eu estar de fato privado deles, ou que permanecessem entorpecidos um momento mais para não sentir o gosto amargo daquele grito agudo que se podia pegar com as mãos. Era certo que víramos, todos, a mesma cena.
Aaaaaaaaarrrrghhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!!!!!!
(continua...)

Saturday, July 01, 2006

Morte Súbita




Faleceu na véspera da final da Copa do Mundo, e a família, pouco afeita ao futebol, marcou o enterro para o mesmo horário do jogo – levando ao desespero os que, por cordialidade ou obrigação familiar, se comprometeram a prestar as últimas homenagens a Seu Jorge, o moribundo – este sim, em vida, um irascível torcedor do esporte bretão. Nos últimos tempos (não havia quem em vida pudesse desmenti-lo) vangloriava-se de ter assistido à final da Copa de 50 no Maracanã e acertado um radinho de pilhas na cabeça do bandeirinha, que corria junto à lateral do campo. Atirara, na verdade, um sapato. E errara por uns 20 metros.
Os presentes chegaram tão tristes quanto impacientes à capela do cemitério onde o corpo estava sendo velado. O céu de nuvens carregadas prometia chuva forte para breve. A intenção oculta entre os presentes era que se enterrasse logo o defunto e fossem todos assistir pelo menos ao segundo tempo no conforto dos seus lares. A família mais próxima, porém, teimava em prolongar-se nos lamentos ao que batera as botas - “Era ainda tão cheio de vida, coitado” – impacientando a ala, cada vez mais numerosa, dos que pressionavam pelo início da cerimônia.
Os primeiros pingos de chuva fizeram com que até o padre aderisse aos lobistas e ensaiasse uma benção breve ao que se curou da surdez. O primeiro tempo já estava no final quando a chuva, cada vez mais forte, inviabilizou as rápidas escapadas para tomar um ar em que se podia acompanhar um pouco do jogo no rádio, ou perguntar da partida para algum amigo via celular. Zero a zero. Alguns mais ansiosos brincavam com a alça do caixão aberto como quem bate à porta naqueles casarões antigos. “Alguém aí? Vamos, tá na hora”. A situação ia chegando a tal ponto que não havia outra alternativa senão levar Seu Jorge para o buraco o mais rápido possível. Já iam abotoar o paletó de madeira quando um relâmpago caiu junto à capela, seguido de um estrondo medonho. Com ele o dilúvio: chovia a cântaros, seria impraticável carregar o presunto até o túmulo. Ficariam ali, presos. Dentro em breve ilhados. O jogo avançava no segundo tempo e os torcedores perderam o pudor em acompanha-lo pelo rádio às vistas do morto. O padre lembrou-se do televisor na sacristia e escapuliu, sorrateiro, para acompanhar a definição da partida. A manobra não passou despercebida, e logo a saleta ficou lotada de gente. A família objetou que era uma falta de respeito que se deixasse o morto sozinho. A situação foi aconchega-lo num canto - não sem dificuldades pois o caixão mal cabia na sala.
Foi só lá pelos 30 minutos do segundo tempo que estavam todos devidamente acomodados para assistir a peleja. O clima estava animado, e cada lance do selecionado canarinho era acompanhado por “UUUUs”, vaias e aplausos. Apenas Seu Jorge esteve mais contido até então. Brasil na defesa: os torcedores batiam 3 vezes no caixão para afastar o azar. A cada ataque perdido batiam novamente, decepcionados.
Com o término do tempo regulamentar e dos acréscimos, o árbitro suíço posicionava-se para encerrar a partida no centro do campo quando um lançamento magistral, partindo da intermediária defensiva, deixou o centroavante tupiniquim na cara do gol. E na cara do gol é gol!
- GOOOOOOOOOOOOOL! – o velório explodiu em festa
- Priiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!! – não valeu.
O juíz havia apitado o encerramento na longa trajetória percorrida pela bola durante o lançamento. Assistiram todos à cena embasbacados, num silêncio sepulcral enquanto o speaker transmitia a interpretação do árbitro na jogada.
Seu Jorge ergueu-se do caixão, descalçou o sapato e o atirou com raiva e força sobrenaturais em direção ao juiz acossado pelo time brasileiro na imagem da telinha.
- Filho da Putaaaaaaaaaa!!!!!!!!
Acertou. Perderam a prorrogação.

Saturday, November 19, 2005

He-man


“Esse é o cara!”. Deve ser mais ou menos essa a tradução de He-man, porque qualquer outra tentativa para o português soa muito estranha aos ouvidos e à gramática.
Dia desses, enquanto assistia Globo News, o controle escorregou acidentalmente e o canal foi parar no Cartoon Network (ali do lado, para quem não sabe) onde estava passando a nova versão animada de He-Man.
Quase nada mudou. Os vilões e os aliados do Reino de Eternia continuam os mesmos de sempre. Minto... duas coisas mudaram: o corte de cabelo estilo “cortina” do He-man agora está mais moderno (já não fazia sucesso nem entre as crianças da minha época) e muitos dos personagens tiveram seus nomes trocados para o inglês: Esqueleto virou “Skeletor”, e Mentor, “Man-at-arms” (!) ou coisa do gênero.
O príncipe Adam continua um fracasso aos olhos da corte, sempre fugindo na hora que o bicho pega. Também pudera... quando um herói tem duas identidades, pelo menos uma delas é necessariamente um fracasso. Por experiência própria, sabemos que dar conta de uma só personalidade já é difícil. Imagine então de duas, sendo que uma delas tem que ser heróica e a outra, pelo menos, não pode comprometer.
Outra coisa que permanece essencialmente igual é a transformação de He-Man. Quando Adam se transforma no protegido de Greyskull, o efeito daquele raio que o atinge assemelha-se ao de pegar no sono dentro de uma câmara de bronzeamento. He-man fica mais moreno, com a voz grossa e menos roupa. Já acorda se espreguiçando, a voz cavernosa... “Pelo poderes de Greyskull!! Que horas são? Dormi muito? Nossa, estou todo queimado... Eu tenho a forçaaaaa!!”O mais impressionante é que ninguém no Reino percebe as semelhanças entre Adam e He-man. Uma vez no Natal meu pai foi ao banheiro bem na hora que o Papai-Noel chegou. Não percebi nada na época. Mas ele estava de gorro, barba branca, barriga postiça... Se tivesse voltado mais moreno, falando grosso e com menos roupa, certamente eu teria percebido alguma coisa. Ficaria um pouco assustado, é verdade. Mas se o presente fosse bom, tudo bem.

Wednesday, November 09, 2005

Dos rodízios e buffets



All-you-can-eat. Tentador. Coma o máximo que conseguir, porque o preço é o mesmo. É por isso que as pessoas param de comer um dia antes quando sabem que vão a um restaurante desses. Querem fazer valer o investimento. O dono do restaurante, é claro, está ciente da situação. Ele tem medo que você coma demais e dê prejuízo. Você está lá para dar prejuízo.
Quando se sai para jantar, normalmente o que se quer é um ambiente agradável, com boa comida. Mas quando você pode comer o quanto quiser, o ambiente e a qualidade pouco importam. O que você quer é comer.
Rodízios de churrascarias são exemplos interessantes. As pessoas chegam pálidas, brancas de fome. E saem afrouxando as calças. “Comi demais, chega... foi bom que o garçom esqueceu da gente ali no final, senão teria comido o dobro”. Ele não esqueceu. Faz parte do script. No começo, eles procuram servir o máximo de carne possível. A idéia é que você coma rápido o suficiente para ter uma congestão sem ter ingerido muita comida. Aqueles cartõezinhos de sim/não, verde/vermelho não passam de ilusões de controle: experimente insistir no cartãozinho vermelho depois do primeiro prato de salada, ou deixá-lo no verde depois que o coração de frango passou pela terceira vez. Inútil.
Alguns restaurantes possuem o requinte de servir também a bebida à vontade por um preço fixo – o refil. Mas o efeito desse estratagema fica sujeito ao famoso paradoxo das conseqüências: os mais fracos podem se encher com o refrigerante e poupar as peças de picanha-nobre; já para os profissionais – que são os que importam - a bebida ajuda a cimentar e compactar o bolo alimentar, abrindo espaço para mais comida.
Nesses casos o melhor a fazer é parar de servir. Depois da bonança inicial, o ritmo vai caindo até o ponto que os garçons parecem ignorar completamente aquela seção. É como se a comida da casa estivesse contaminada por alguma doença contagiosa, e os fregueses precisassem ficar um tempo de quarentena antes de serem liberados para pagar a conta. Por isso que você nunca vê um garçom provando a carne escondido – eles nunca sabem dizer se a peça está bem ou mal passada. Cortam primeiro e vão botando no seu prato, sangrando... “bem passada pra você?”. Isso quando a pergunta não vem com aquele ar de desdém, como se comer carne vermelha fosse prova de virilidade. Quem ele quer enganar? Nenhum de nós dois caçou aquela vaca, e mesmo se fosse o caso não teria sido uma caçada das mais emocionantes. “A mocinha quer que passe um pouco mais?”.
O buffet all-you-can-eat diz muito sobre a classe e o requinte de um restaurante. Nos mais fuleiros, pagam-se as sobras. Por peça, no caso dos rodízios japoneses - e por peso mesmo, naqueles onde o almoço custa $4,90. “Onde você pensa que vai? Tem pelo menos umas 100 gramas aí nesse seu prato. Não gostou do gato? Azar o seu... Você me deve $0,50!”
Acredito que o rodízio que mais se aproxime do ideal é o de pizzas: dificilmente param de servir, e se você quiser pode deixar as bordas de lado que ninguém vai pesá-las. Tudo isso, creio, graças ao advento da pizza doce. Ela restabelece a ordem natural das coisas: Salgado – Doce – Rua. São sempre enjoativas, que é para garantir que ninguém vai voltar para os pedaços salgados. Reparem que antes dos rodízios de pizza não havia pizza doce (nada na vida é por acaso...)
Bom, agora chega que escrever dá fome. Ler mais ainda. Vai uma pizza de chocolate?

Tuesday, October 25, 2005

Dos medos infantis



Toda criança tem medo de escuro. Qual fantasia perambula pelas suas mentes no apagar das luzes é difícil dizer. As histórias de mula-sem-cabeça, da cuca, do bicho papão e outras celebridades do mundo do folclore caíram em desuso há algum tempo e dificilmente ocupariam um lugar honroso no share of mind dos principais medos infantis. A derrocada do folclore nacional, creio, passa por uma ampla gama de fatores, sendo o principal deles a urbanização: o curupira é o protetor das florestas (desmoralizado, coitado), a mula-sem-cabeça dificilmente faria boas performances correndo no asfalto, e o lobisomem... o lobisomem é americano. Além do mais, os pais de hoje já não têm mais tempo ou paciência (tampouco algum talento narrativo, que sempre cai bem) para contar a história do homem-do-saco.
De todo modo, as crianças continuam com medo do escuro. Parece lógico, portanto, que o eixo-do-mal foi deslocado para um outro time de personagens. Mais modernos e antenados com as novas tendências. Aliás, à frente delas, pois em tempos de globalização eles já viajam universo afora. Não é minha intenção desprestigiar espíritos e fantasmas – até porque não quero represálias do lado de lá. Mas sempre tive mais medo dos extraterrestres - e creio não estar sozinho.
Difícil precisar quando tudo começou. Mas os mais velhos se recordarão de uma noite fatídica em que o Fantástico, num ato de terrorismo, levou ao ar o vídeo da autópsia de um extraterrestre capturado morto após um acidente automobilístico com seu disco voador. Teria dormido ao volante? Não se sabe.
Uma criança da época não tinha muita noção do que era um vídeo forjado. E mesmo que tivesse, era o Fantástico – ao lado do Gugu, expressão máxima da verossimilhança - quem bancava a história. Para a 3ª série aquilo era uma prova cabal da existência dos Ets. E eles não pareciam dos mais amistosos. Os causos dos colegas assustavam, sem dúvida. Mas, pessoalmente, nunca lhes dei muito crédito, pois contavam histórias as mais absurdas. Agora, diante de fontes fidedignas... noites em claro eram garantidas.
No dia seguinte ao da reportagem, o clima na escola era de velório entre os que tinham assistido ao vídeo. Todos com olheiras da noite mal dormida. Alguns faltaram. O pânico que aquilo causava nas crianças assemelhava-se ao que uma fuga de capitais em massa causa nos operadores da Bolsa de Valores. Chegávamos estressados. No lugar das pastas 007, lancheiras. As mães aproveitavam a distração para rechea-las com legumes e outros vegetais. Mato. A partir daquele domingo, talvez mancomunado com a indústria hortifrutigranjeira, o Fantástico passou a exibir imagens de discos voadores semanalmente. O clima era de invasão, e já se espalhava por outro setores da mídia (Gugu incluso). Certo dia, na sala de espera do dentista, li numa revista depoimentos de pessoas abduzidas (o seqüestro intergaláctico, prática mais comum do que se imagina, como fiquei sabendo). Todas as noites, os Ets capturavam alguma criança para fazer experimentos científicos que só poderiam ser lembrados através da hipnose. Dispensei a anestesia, e entre uma obturação e outra, ponderava meu leque de opções: devia me preocupar em não ser pego ou em descobrir a verdade sobre o meu passado?
O pior era que tudo isso acontecia num momento dos mais inoportunos, quando, em casa, eu havia sido deslocado para o meu novo quarto, que ficava muito longe dos demais e bem ao lado do Escritório - sabidamente um ponto de encontro de extraterrestres.
Felizmente, o tempo passa e a tudo transforma, soprando longe os medos de criança. O Fantástico e o Domingo Legal hoje são programas sérios...
E um dia, quando encontrar o Fábio Puentes, eu tiro a dúvida da abdução.

Friday, October 21, 2005

Do gol que até o Bobô faria


(Baseado em fatos reais)

Sempre fora um goleador nato, desde os tempos do primário. Matador, implacável. Gênio da pequena área e dos pequenos espaços. Uma pena que só marcasse em treinamentos e bate-bola descompromissados. Era o jogo valer alguma coisa (podia ser um misto e uma coca) que seu futebol sumia como o do Raí na seleção. Se todos na escola o observavam com desconfiança e sua carreira estava desacreditada, foi entrar para a faculdade que encontrou um novo alento: ninguém ali conhecia o seu lado bambi-tricolor. Exceto, claro, ele próprio.
O time da faculdade de Medicina preparava-se para uma competição entre calouros que seria disputada em uma cidade do interior paulista. Durante a pré-temporada, credenciou-se como a principal esperança da equipe, tanto no salão quanto no campo. Em um treino, chegou a marcar 30 gols em 2 horas: de cabeça, pé direito, pé esquerdo, calcanhar, ombro, joelho... Impressionou tanto que o treinador preparou um esquema com apenas um atacante, para aproveitá-lo melhor. O matador não se comoveu com a confiança depositada nele. Pelo contrário. Do alto de sua grandeza de espírito, proporcionada pelo auto-conhecimento de que só os sábios desfrutam, sabia que falharia. E não havia nada que pudesse fazer. O melhor era tratar de arranjar uma saída honrosa.
No jogo de campo, entrou com um pensamento fixo: contundir-se. Desde o início tentou em vão envolver-se em algum lance em que pudesse forjar uma contusão. Sem sucesso, correu os 90 minutos sem tocar na bola, escondendo-se atrás da marcação e reclamando que a bola não chegava. O placar foi um sonoro 4 a 0 contra.
No dia seguinte, a hora e a vez do futebol de salão. Na quadra seria mais difícil esconder-se, pensou. Mas contundir-se era muito mais fácil. Na primeira oportunidade que teve, envolveu-se numa dividida mais ríspida e saiu mancando, numa performance que se não valia o Oscar pelo menos era digna de um Kikito de ouro (o do Festival de Gramado). Acompanharia o resto da partida do lado de fora, a fama de grande esperança e melhor jogador do time garantida por mais um ano, até o próximo campeonato. Sentado no banco de reservas, personificava a certeza da vitória roubada num lance fortuito. Missão cumprida, imaginava, enquanto do lado de fora as meninas traziam gelo para o seu tornozelo.
Em quadra, o jogo era equilibrado. No finalzinho, jogo empatado, imploraram para que entrasse. “Vai lá, dá o sangue cara!! Dá o sangue pela faculdade!” Não dava a mínima para a faculdade ou o resultado do jogo. Mas considerou que não tinha nada a perder. Estava machucado e podia ficar mancando em qualquer canto da quadra que ainda sairia como o herói. Aquele que “deu o sangue”. Foi.
A partida estava para acabar. Em uma bela jogada pela esquerda, seu companheiro livrou-se da marcação e atraiu a atenção do goleiro, que saiu em vão para tentar desarmá-lo, estabacando-se no chão. O artilheiro posicionou-se para receber o cruzamento, que veio certeiro.
Ele e o gol.
A bola vinha quicando, mansinha. Um daqueles lances em que um corintiano acredita que até o Bobô (quem não conhece, não perdeu nada) marcaria. Um cabeça-de-bagre tropeçaria na bola, empurrando-a para as redes. Não ele. Era um craque, e um gol devia se fazer com estilo. Enxergava na frente, antecipava. Como só os craques fazem. Enquanto a bola se aproximava, o plano todo na cabeça: faria como Romário, naquele gol contra a Holanda em 94. Daria um pulinho, os braços abertos, chutando a pelota num bate pronto, de leve. Com a bola nas redes, sairia comemorando pela direita, para os braços da torcida. O herói do time, goleador... que deu o sangue pela faculdade. Mancaria de preferência.
Acontece que os deuses do futebol não quiseram assim, e o bate pronto fez com que a bola voltasse para a esquerda, de onde veio. Dessa vez, porém, para os braços do goleiro, que se levantava lentamente como quem tivesse certeza que buscaria a bola no fundo do gol. Contra-ataque, último lance. Gol do adversário. Derrota...
Saiu mancando o tanto quanto podia. Os companheiros olhavam decepcionados, como se quisessem matá-lo. No lugar da faca um “tudo bem, você deu o sangue” rangendo os dentes.
Recuperou-se surpreendentemente rápido da decepção. Uns 15 ou 20 minutos foram suficientes, quando já era hora de ir embora para casa. Voltaria de carona no carro de uma menina da Atlética, junto com alguns amigos que, como ele, estavam lá mais pela farra que pela competição. Antes, uma brincadeira: “Olha só... eu mexo assim – e fazia um movimento mínimo com o pé, acompanhado de um gemido de dor – e dói... Assim – mexia menos ainda – dói também... Mas quando eu mexo assim - passou a girar freneticamente o pé “machucado” – não dói nada!!! Hahahahhaha”
Quase perdeu a carona. No semestre seguinte, na volta aos treinos, o treinador também não achou graça: “Você corre bem cara... que tal Atletismo?”

Monday, October 17, 2005

Do apêndice e outros adendos


Havia chegado com fortes dores abdominais, e o diagnóstico do plantonista foi taxativo: infecção intestinal. Sem maiores complicações.
Após alguns dias, as dores se agravaram e, já agonizante, foi procurar outro farmacêutico:
“Acho melhor o senhor procurar um médico”
Apendicite supurada e peritonite generalizada. Passou 60 dias internado entre a vida e a morte, e traumatizou-se de tal forma com o mal causado por aquela tripinha involuída que resolveu extirpar todo o resto que pudesse ser considerado supérfluo.
- Mas isso não tem cabimento. Cirurgias são práticas invasivas... desaconselháveis em boa parte dos casos. Não há motivo para preocupação, hoje existem exames que...
- Tira tudo doutor! E pode começar pelas amígdalas. Que já estão me incomodando.
- Mas senhor...
- O cliente aqui sou eu! E o freguês tem sempre razão.
O médico já ia se levantando indignado com aquele mortal que, por ter se livrado de um apêndice, achava-se no direito de questionar sua divindade. Logo ele. Um cientista...
- Dinheiro não é problema!
Na profissão de Hipócrates, a Ciência e o Açougue caminham de mãos dadas. E o próprio Hipócrates, na época, devia ter que pagar suas contas.
- Vejamos o que posso fazer por suas amígdalas... – cheio de empáfia, sua expressão era a de um churrasqueiro afiando uma faca na outra.
- Assim é que se fala doutor! O que mais podemos tirar?
- Que tal o baço?
- Braço?
- Isso. Baço.
- Aaah... baço... Pode ser. Faz falta?
- Nada. E já que estamos por ali podemos tirar a vesícula biliar também.
- Boa. A visícula de bilhar um tio meu já tirou. Pode pôr na conta aí.
- Vou tirar um rim também. Daí você vê o que faz. Se congela, vende...
- Opa, peraí doutor... não vai tirando nada de lá sem perguntar primeiro...
- Eu pergunto na hora então, daí a gente faz o que você achar melhor. O cliente tem sempre razão.
- Mas e a anestesia? Falar como?
- Vejamos. Apêndice você falou que já tirou... Amígdalas vamos estar tirando. Hmm.. ali pertinho tem a tireóide. É uma glândula, mas sai fácil... dois palitos...
- Ah não... chega... acho melhor a gente ir parando por aqui – e foi se levantando, assustado, com as mãos onde achou que pudesse ficar a tireóide. - Cirurgias são muito invasivas... E sempre tem os exames que a gente pode fazer, não é verdade? Pra saber se vai dar problema ou não...
- Que exame nada... espera um pouco! Volta aqui...ainda dá pra tirar o útero!!! Quer dizer, útero não dá... Não quer tirar a próstata??

Wednesday, October 12, 2005

Dos submarinos e viagens afins

Sempre tive verdadeiro fascínio pelas máquinas que proporcionam experiências diferentes daquelas da vida cotidiana. E os submarinos certamente se encaixam na minha definição do não-cotidiano, bem como, creio, na da grande maioria das pessoas que não trabalham neles. Dia desses, passeando pelos canais de tv, fui parar num desses documentários que só se assiste en passant. Sobre submarinos, claro.
O cotidiano nessas máquinas, porém, como me dei conta, é muito menos fascinante que o conceito do submarino em si. Para começar, é tudo muito apertado lá dentro e para onde quer que se olhe tudo é visto num escurecido tom metálico. A iluminação não é das melhores, muito menos a decoração, um tanto espartana. Falta (aqui não resta dúvidas) uma janela grande de vidro para que a tripulação ao menos possa entreter-se observando tubarões ou alguma lula gigante. Como no Nautilus.
Em situações de emergência, acendem-se as luzes vermelhas e o ambiente vira um grande laboratório fotográfico. Não seria prudente disparar uma sirene ou coisa que o valha, já que os submarinos, inclusive os inimigos, orientam-se por sons. Nesse ponto do documentário, um velhinho (quem seria?) surge para, num raciocínio cartesiano, explicar que os engenheiros se esforçam para eliminar o som mais alto produzido dentro da embarcação. Mas que, uma vez eliminado ou diminuído este som, um novo som mais alto aparecia, e o trabalho nunca ficava completo. Brilhante.
Que os submarinos se orientam por sonares todo mundo sabe. Mas que estes se tornaram tão sensíveis a ponto de não informarem quase nada, para mim era novidade. Ouvir um dos operadores dizer que muitas vezes é difícil distingüir o som de uma foca do de um navio deve ser, no mínimo, preocupante para o restante da tripulação. Nessas horas que a janela de vidro seria, mais uma vez, uma ótima solução. Se um par de torpedos apontar da direção onde estaria a foca, não restará dúvidas de que era um navio.
Os especialistas se redimiram esforçando-se para desfilar seus conhecimentos sobre os sons do mar: “Um barco a vapor faz poc-poc-poc ... a baleia faz nhéc–nhéc- nhéc.... como um choro. Uma lancha faz vvvvvvvv....”. E por aí foi. Hilário... até deu para esquecer que eles não fazem a menor idéia do que estão escutando.
Em tempo: as “viagens afins” do título ficam para outra ocasião. Não quis escrever só “Dos submarinos”. Muito curto.

Friday, October 07, 2005

Dos esportes olímpicos





Lembro-me até hoje da minha primeira Olimpíada, a de Barcelona. Do entusiasmo com que recebi o conceito naquela Era pré TV a cabo. “Como é que é? Só vai passar esporte na TV? Um mês inteiro?!” Esportes na Tv nunca eram demais, e eu assistia desde o Desafio do Galo, um obscuro bate-bola varzeano nas manhãs de domingo da Cultura, até o finado Verão Vivo, suposto festival esportivo das tardes da Bandeirantes. Temo que se eu tivesse passado minha infância tendo à disposição 3 ou 4 canais canais com programação esportiva 24hs, estaria até hoje batalhando minha aprovação na 5ª série.
Considerações televisivas à parte, o fato é que meu espanto olímpico só não foi maior que o meu estranhamento com o rol de esportes que seriam disputados naquela bela cidade espanhola. Eles diferiam bastante daqueles que eu acompanhava, religiosamente, todas as manhãs nas páginas de Esportes do jornal. Talvez eu imaginasse que todo esporte, à exceção do automobilismo, prescindisse de uma bola para ser praticado. Notei que não apenas a bola era desnecessária, como também automobilismo não era esporte. O que, aliás, hoje vejo que faz todo sentido. Como pode haver uma corrida em que ganha-se posições estacionado enquanto 20 ou 30 mecânicos trocam os 4 pneus do seu carro? Imagino como seria uma conversa entre os pilotos, com o vencedor, orgulhoso, gabando-se após a prova: “Ok, você pode ser melhor piloto do que eu, mas os meus mecânicos... ah, os meus mecânicos...”. Injusto? Sequer correm com os mesmos carros...
Xadrez e golfe também não seriam disputados, o que era uma pena, pois perdia-se em emoção. Mas havia o arco-e-flecha e a pistola-a-ar para substituí-los à altura. E que diabos era badminton?
Nunca entendi os critérios para que um esporte possa ser considerado olímpico. Penso que devia-se fazer uma compilação das páginas esportivas dos principais jornais do mundo e apurar as modalidades que neles fossem mencionadas. Todas as que fossem mencionadas pelo menos uma vez seriam reconhecidas como esporte. Mais de uma menção? Esporte olímpico. Acontece que o tempo passa e a gente vai se acostumando aos esportes olímpicos tradicionais, passando até a torcer por medalhas no hipismo, por exemplo, uma competição disputada entre cavalos, que são obrigados a saltar obstáculos com um jóquei atrapalhando no lombo. O que fica difícil de engolir é a alocação das medalhas por modalidade. O critério parece ser: quanto mais popular for o esporte, menos medalhas serão distribuídas. Assim, no futebol, no vôlei e no basquete, os competidores serão separados apenas por sexo, o que garante um máximo de duas medalhas para cada uma dessas modalidades. Já no levantamento-de-peso serão criadas tantas categorias de peso quanto possível, o que garantirá a um russo qualquer o título de melhor atleta de 58,5 kg do planeta. Caso a divisão por peso não faça muito sentido, como ocorre no Tiro Olímpico, a ordem será criar um bom número de provas, por mais enfadonhas que possam parecer. Uma das provas do tiro chama-se fossa olímpica. Compreensível...
Mas o que conta mesmo numa Olimpíada é o espírito olímpico, e podemos praticá-lo até num jogo de dardos. Aliás, taí uma boa sugestão... o Dardo Olímpico... poderíamos subdividi-lo em categorias de peso, individual e por equipes... haveria provas em que os atletas atirariam vendados e outras em que os lançamentos seriam feitos de costas...
Com um bom número de medalhas, o sucesso é garantido.